Dica de Filme

Lemon Tree
2008
Direção: Eran Riklis


As sutilezas, geralmente, conferem ótimo cinema, apesar de pouco praticadas. E, mais geralmente ainda, arroubos narrativos, jogos histéricos de câmera e muita pseudointelectualidade resultam em filmes pedantes, aplaudidos por muitos, é verdade, mas, sem a mínima substância para classificá-los como autêntico cinema. Simplicidade não significa descuido; é apenas um dos melhores jeitos de passar uma mensagem, e mesmo assim, ter algum verniz artístico. Algumas produções falam, por exemplo, da desapropriação de terras pelo governo ou por empresas privadas, mas, provavelmente, poucas têm o impacto de "Lemon Tree".

A história, por si, já dá margem para que se desenvolva algo muito bom a partir dela. Conta as agruras de Salma Zidane, uma viúva que mora na fronteira entre Israel e Cisjordânia. Sua vida passa a ter sérios problemas quando o Ministro da Defesa israelense vem morar em frente às sua plantação de limoeiros, e, de acordo com o Serviço Secreto de Israel, essa plantação oferece riscos ao ministro, já que terroristas podem usá-la para se esconderem e cometerem ataques de diversas formas. Salma, então, começa uma luta, aparentemente inglória, para permanecer com seus limoeiros, mesmo indo de encontro ao governo de Israel.




O bom do filme é que ele não se presta a muitos floreios, e, por isso mesmo, o resultado é bastante satisfatório. Não vemos em cena exagerados e forçados conflitos. Tudo é contido na medida certa, denunciando o que tem de ser denunciado, fazendo o espectador se indignar sem muito esforço. Basta ver a arrogância do Ministro da Defesa (muito bem construído pelo roteiro) em contrapartida à simplicidade de Salma, que, desesperada, encontra ajuda em Ziad Daud, um jovem advogado palestino, que, inclusive, é bem inserido na trama, e se torna uma peça primordial na luta da protagonista contra um sistema que produziu e sente medo da guerra, chegando ao ponto de enxergar o perigo em todos os lugares, até mesmo numa plantação de limões.

Por sinal, os limoeiros, na história, possuem também uma função metafórica. Representam a tradição de um passado que Salma ainda pretende preservar, já que ela não está interessada na indenização que o governo de Israel lhe oferece, e sim, em poder continuar cuidando de suas terras. Quando a plantação é cercada, vemos, em muitas cenas, vários limões caindo ao chão, o que representa outra figuração: a desilusão crescente de Salma por não estar conseguindo vencer uma batalha tão árdua, e também pode significar o passado dela indo embora para dar lugar a um novo presente.




Outra personagem otimamente construída é Mira Navon, esposa do Ministro da Defesa, e que, como o passar do tempo, nutre uma grande admiração por Salma e sua determinação em preservar seus limoeiros. Em nenhum momento, porém, as duas tem oportunidade para conversarem, apenas, olhando-se, esporadicamente, de longe. Enquanto Salma se sente cada vez mais firme em seu objetivo, Mira se sente numa prisão, uma casa extremamente protegida pelo governo, mas, sem liberdade, e ainda com um marido muito ausente e de pouco diálogo com ela. Vê em Salma, portanto, uma espécie de modela, a quem passa a admirar em segredo.

Com uma gama de personagens tão bons, e uma história verdadeiramente forte, seria até fácil a coisa descambar para o pieguismo, ou, simplesmente, para soluções fáceis. O diretor (que, inclusive, é israelense) Eran Riklis, contudo, sabe manejar muito bem um enredo que não é dos mais simples, construindo cada sequência com a paciência necessária para extrair todo o potencial dela. Exemplo disso é a relação entre Salma e Ziad, que, desde o início, percebemos que será despertada uma paixão entre dois. No entanto, não é porque, de antemão, já sabemos que será assim, que as cenas entre os dois precisariam ser mal-feitas. Ao contrário: tudo o que acontece entre os dois personagens é espontâneo e natural, nem um pouco fake.



Nisso, o filme se desenrola até um final muito bom (e condizente com a produção como um todo). Não esperem, porém, alguma grande catarse; não é essa a intenção de seus realizadores. O que se quer é mostrar um grande exemplo de resistência, que mesmo contra todos os prognósticos, continua a resistir. E, claro, iremos encontrar as óbvias críticas à guerra, mas, de maneira não tão óbvia assim. "Lemon Tree" faz, praticamente, tudo certo, e acerta nos alvos que pretende. Uma forma até simples de se fazer cinema, e, por isso mesmo, talvez a melhor. Que os pseudocults de plantão aprendam, pois, como contar uma boa história. O resto, é consequência.


NOTA: 8,5/10

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