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Dica de Filme

"Palombella Rossa" (1989)
Direção: Nanni Moretti.


Há filmes, por assim dizer, inclassificáveis. É o tipo de produção que mexe com o espectador. perturbando-o de tal forma, que que este não sabe se ri, chora, reflete, ou qualquer outra coisa. Mas, dificilmente, ele fica indiferente ao que vê. E, há aqueles cineastas que são inclassificáveis, profissionais que sempre (repito: SEMPRE!) nos proporciona experiências interessantíssimas com seus trabalhos, e, por isso mesmo, são, às vezes, de difícil assimilação pelo público médio. O italiano Nanni Moretti pode, sem maiores problemas, ser colocado nesse rol privilegiado de diretores em que cada um dos seus filmes nos proporciona momentos únicos.

Este "Palombella Rossa", por exemplo, é um filme de descrição um tanto complicada. Como classificá-lo? Uma drama? Uma comédia? Os dois juntos? Ou, algo mais? É preciso, como se vê, ter certa paciência e atenção para "pegar" sua história. No decorrer das cenas, vamos assimilando o que, de fato, está acontecendo. Em primeiro lugar, o protagonista (interpretado pelo próprio Moretti) sofre um acidente de carro, e perdendo a memória. Corta para cenas dele sendo "levado" por uma equipe de pólo aquático para um campeonato importante. No decorrer do percurso, e enquanto se prepara para o jogo, lembra-se, vagamente, quem era: um comunista!




A partir do momento em que sua memórias vão regressando, o personagem principal passa a fazer diversos questionamentos, e, muitas vezes, no meio do jogo, no instante em que o treinador começa a dar instruções à sua equipe, etc. E, são essas partes o ponto-chave do filme. Ao fazer esses questionamentos naqueles momentos mais, digamos, "inoportunos", ele traça um paralelo interessante com o jogo de pólo aquático que está acontecendo com suas crises de identidade, criticando não somente os métodos do Partido Comunista, mas, da sociedade, como um todo.

É providencial que muitas dessas memórias mostrem cenas antigas, de um Nanni Moretti jovem, que, mesmo no ápice de sua militância política, não deixa de questionar a tudo e a todos (inclusive, o próprio fato de ser comunista). Há cenas também que relembram sua infância, e como uma única decisão que ele tomou nessa época, reverbera até hoje em sua vida. E, há outros momentos bem fortes, quando, no presente, ele não suporta mais as pessoas ao seu redor, soltando frases de pura revolta (e, todas com bastante consciência):

"As pessoas estão mais preocupadas com um mero jogo de pólo aquático do que com a vida ao redor delas!"

"As palavras são importantes. Tenham cuidado com o que dizem!"

"O mundo, hoje, está povoado por parasitas canalhas, o que nos força a sermos melhores do que eles!"

 



A inquietação de Nanni Moretti chega ao ponto dele quebrar a quarta barreira, e "falar" diretamente com o espectador. É como se fosse um Woody Allen mais ingênuo e inconformado. O que temos, basicamente, em "Palombella Rossa" é um estudo muito crítico e convincente da crise da Esquerda nos dias atuais, em especial, na Itália. Moretti, não polpando ninguém de suas ironias, constrói um roteiro engenhoso, que mesmo sendo tão mordaz em seus questionamentos, ainda assim, consegue divertir. Não são poucos os momentos em que rimos de forma natural de situações muito nonsenses e absurdas, mas, nunca apelativas ou idiotas.

Moretti consegue driblar todo o histrionismo das comédias italianas com um texto bem amarrado, e que também é uma aula de amor ao cinema, com diversas cenas de "Doutor Jivago" sendo mostradas numa pequena televisão. Mas, as grandes catarses são mesmo as indiretas que o cineasta dá em tudo e em todos, sem jamais perder o foco: a reafirmação e a reinvenção de seus ideais com o passar dos anos, para que você continue sendo coerente com aquilo em que acredita. Longe do pedantismo, "Palombella Rossa" nos oferece um bela e necessária reflexão, que, passados 28 anos, não perdeu sua força.




E, quanto mais filmes assistimos de Nanni Moretti, mais percebemos o quanto ele não é só um artista único, mas, também uma pessoa fascinante, que consegue passar toda a sua integridade como ser humano em sua obra. Seja como pessoa ou como cineasta, é muito bom saber que, com o tempo, ele continua nos dizendo coisas relevantes (vide o recente "Mia Madre"). E, ao final de "Palombella Rossa", o temos? Revolta. Inquietação. Desilusão. Nostalgia. E, sobretudo, esperança. Uma arte que vai muito além do que se propôs no início.


Nota: 9/10.

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