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Dica de Filme

"Santa Sangre" (1989)
Direção: Alejandro Jodorowsky.


A liberdade, sem dúvida, é um os bens mais preciosos do ser humano. Não uma mera liberdade que se fazer tudo o que quer, mas, sim, aquela que permite nossa autonomia, nossa capacidade de discernimento, enfim, o nosso caráter. E, esse é o tema central de "Santa Sangre". mesmo que, aparentemente, estejamos vendo aqui uma história mais "tradicional" do inquietante cineasta Alejandro Jodorowsky. Pra quem já conhece a filmografia do diretor, sabe muito bem que as suas produções são tudo, menos, convencionais.

Porém, enquanto o tema central desse filme é a liberdade, o seu universo é totalmente circense (lembrando que o próprio Jodorowski trabalhou no circo quando jovem). Por sinal, este talvez seja o filme onde mais se veja essa influência, não só porque o cenário do primeiro ato se passa, de fato, num circo, mas, devido às metáforas que versam sobre a representação de cada pessoa no palco que é a vida. Em princípio, vemos um rapaz, nu, completamente alucinado e internado num hospício, para depois, acompanharmos suas memórias e entendermos o que, realmente, aconteceu.




Nessa parte da história, aparece toda a sorte de personagens inusitados, característica fundamental na obra de Jodorowsky. Desde uma mulher totalmente tatuada a uma garota mímica, que, na verdade, é surda e muda, há uma gama de seres excêntricos, mas, não menos reais do que os que vemos no dia a dia, com suas qualidades e, principalmente, os seus defeitos. O rapaz do hospício no início do filme se chama Fênix, que, nessas memórias, aparece ainda criança, e e´filho do dono do circo e de uma das atrações dele, uma mulher que faz acrobacias pendurada em seus cabelos.

Não tarda muito, e o filme exibe outra grande característica das produções do diretor: a crítica à religião, mais precisamente, ao fanatismo. Essa sequência também é mordaz ao mostrar a intolerância do alto clero da Igreja, além dos eventuais abusos de autoridade por parte do exército. Bastante simbólicas, essas cenas são um primor de direção, envolvendo o espectador de tal forma, que chegamos até a embarcar na aura fanática de um grupo que construiu um templo em homenagem a uma garota assassinada que julgam ser santa.




A produção também não polpa críticas à exclusão social numa cena que é antecedida de algo, aos nossos olhos, absurdo: um funeral de um elefante. A conclusão da sequência é de uma revolta voraz contra a miséria e qualquer outra forma de exclusão, e só mostra o porquê alguém como Jodorowsky é tão reverenciado. Qualquer outro realizador teria filmado tais cenas apenas por serem inusitadas, e nada mais. O cineasta chileno, porém, quis concluir tudo de maneira crítica, alfinetando a sociedade do seu jeito, comprovando sua grande preocupação pelo ser humano, outra característica marcante sua.

A história de "Santa Sangre" segue, e vemos, finalmente, que tragédia se abateu sobre Fênix para ele ter ficado catatônico e ter ido parar num hospício. Nos dias atuais, quando ainda não apresenta sinais de melhora, é quando sua mãe vem resgatá-lo, e passam a fazer apresentações artísticas  juntos de uma um tanto peculiar: ela, por ter perdido os braços na tragédia já mencionada, "usa" os do filho como se fossem seus, mas, não somente para os espetáculos em que se apresentam, sim, também, em todas as tarefas do cotiano, como comer e se vestir. Extremamente possessiva, ela instiga o filho a matar qualquer mulher que tente afastá-lo dela.




É nesse ponto que reside a maioria das metáforas a respeito da liberdade, e também os momentos mais arrastados do longa. Ao contrário de "El Topo" e "A Montanha Sagrada" (suas maiores obras-primas), aqui não há histórias, necessariamente, mirabolantes ou repletas de referências que completem a narrativa no momento certo. Por ter um enredo mais convencional, às vezes (raramente, diga-se), "Santa Sangre" se perde na própria contemplação, e uma cena acaba ficando mais longa do que devia. Apesar disso, o incômodo não é tão grande, afinal, somos levados a um belíssimo desfecho, uma ode total à liberdade, à resistência, ao renascimento. 

De uma forma geral, "Santa Sangre" é um filme mais redondo, porém, "menor", dentre os grandes clássicos de Jodorowsky. Mesmo assim, até hoje, continua sendo uma produção de muita beleza e força narrativa, além de possuir mensagens das mais adequadas para essa geração.  E, como toda a obra do diretor, ele também não é de fácil digestão, precisando de certo cuidado e um pouco de esmero para ser assimilado por completo em suas propostas. No entanto, tal esforço terá valido a pena, sem dúvida alguma.


Nota: 8,5/10.

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