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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Aquarius" (2016)
Direção: Kléber Mendonça Filho


Convenhamos: um filme é um filme, e nada mais. Pode representar muito bem um período histórico, passar uma mensagem necessária para o público naquele momento ou, como conseguem alguns cineastas, ser um verdadeiro tour the force contra um sistema opressor, autoritário e fascista ("O Grande Ditador", "Terra em Transe", etc.). Mas, em geral, um filme é apenas um mero reflexo do realizador,  Além disso, vejo que em "Aquarius", voluntariamente ou não, foi alimentada uma polaridade política em torno dele, devido ao nosso atual momento, o que prejudicou a sua recepção e percepção . Depois do protesto de sua equipe no Festival de Cannes contra o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, foi iniciada uma verdadeira batalha contra e a favor da produção. Tratar do filme em si, pelo o que ele é como cinema, pouco vi até agora e por isso, a resenha que segue tentará abordar "Aquarius" pelo que ele está representa, mas, também como produto cinematográfico, passando longe dessa polarização Esquerda x Direita. Vamos lá.

Em primeiro lugar, saliente-se que é louvável Kléber Mendonça tentar abordar um assunto tão urgente e necessário que é a especulação imobiliária num filme seu. A produção, claramente inspirada pelo espírito do movimento #OcupeEstelita, já confere alguns pontos pelo tema oportuno. No entanto, já nos primeiros momentos da película tornamos a ver os mesmos defeitos que antes compunham "O Som ao Redor", filme anterior do cineasta: imagens plásticas, bonitas, mas, com conteúdo raso combinado a uma música bem popular, no intuito de tentar "fisgar" um determinado tipo de plateia. As cenas valem pelo que mostram visualmente e não pelo que conseguem contar. As atuações são mecânicas e não passam emoção, isto deixado por conta da música e do cenário. 


O filme faz uma introdução e segue para a primeira parte, intitulada "O Cabelo de Clara", e aí, a coisa só desanda. Mostrando o passado da protagonista, Kléber Mendonça mostra sua falta de time para costurar o fio narrativo, a exemplo da cena onde a tia de Clara é homenageada e relembra o passado, enquanto uma de suas sobrinhas lê pra ela um cartão de aniversário. Nesse momento, em paralelo à fala da menina, vemos a tia, ainda jovem, em tórridas cenas de sexo com um rapaz. Seria uma ótima sequencia caso tudo fosse mais leve e engraçado, sem tanta economia de cenas, e não descambassem tanto para o explicito. Isso acabou tornando a narrativa demasiadamente travada e sem emoção. A gente sabe a intenção da cena, mas vê também que ela não funciona. Com tantos envolvidos na produção de um filme, isto, logo de inicio, passar batido, faz arrefecer qualquer expectativa.

Mas, então, vem o tempo presente, e pensamos: o filme vai melhorar. Não vai. Os maneirismos do cineasta (como, por exemplo, cenas excessivamente contemplativas, sem profundidade) continuam presentes, tornando a narrativa arrastada e chata em muitos momentos (algumas sequências se mostram desnecessárias, tornando o filme mais longo do que deveria), e pior: desperdiçando uma personagem que poderia ser mostrada de maneira mais cativante (Clara). Outro defeito que fica visível é o mau uso da trilha sonora (que, isoladamente, é excelente), mas, que, na maioria das vezes, é tão alta e mal utilizada, que acaba abafando a fala dos personagens. Nesse ponto, só uma cena é digna de nota (quando Clara começa a tocar Queen para abafar o barulho de uma festa no apartamento acima do seu).




E, com esses problemas (má atuação generalizada, diga-se, música deslocada e direção capenga), o filme vai se arrastando, e somente, meia hora depois, vislumbramos uma luz no fim do túnel, que é quando a personagem principal sofre uma espécie de decepção amorosa, que inclusive não faz jus ao título do capítulo ("O Amor de Clara"). Nesse momento, as cenas se mostram um pouco mais naturais, e a partir daí, sentimos um pouco de piedade de Clara e sua latente solidão não só no edifício Aquarius, cujo seu apartamento ela teima em não vender pra uma construtora poderosa do Recife, mas também em sua vida particular. As sequências seguintes, mostrando seus filhos já crescidos, e, ao mesmo tempo, distantes dela, evidencia isso, e, pela primeira vez, vemos diálogos realmente bem construídos, espontâneos, daqueles que realmente teríamos na vida real. Só que, a partir desse instante, ao invés do filme engrenar de vez, ele oscila entre momentos mais ou menos bons e outros sofríveis.

As cenas continuam fakes, feitas pra agradar o pessoal cult e "antenado" da cidade, os diálogos permanecem ruins, nem um pouco orgânicos, e os personagens, em geral, não conseguem ser interessantes o suficiente. De todos, apenas Diego, neto de um dos donos da empreiteira, mostra-se um personagem um pouco mais convincente, um canalha que, realmente, inspira raiva no espectador. Mas, ainda assim, não chega a ser um estupendo antagonista. Muito se falou também de que se tratava de um filme de memórias (nesse caso, as memórias de Clara), mas, as cenas são tão mal-construídas, que fica difícil sentirmos empatia pela personagem e ficarmos nostálgicos juntos com ela. De fato, um desperdício.




Nesse meio tempo, o filme, isoladamente, oferece ao espectador mais uma boa cena (o justíssimo desabafo de Clara a Diego), que, mais uma vez, mostra que o filme ganharia mais se tivesse deixado de lado uma construção fake e caricata da trama, e tivesse investido na simplicidade de algo mais natural. Veja bem: a narrativa fala de uma mulher, que passou por uma grave doença e sobreviveu, é carismática e boa gente, e que agora, enfrenta sérios problemas com a especulação imobiliária. Era para sentirmos uma profunda e intensa revolta durante o filme todo. E, não é isso o que temos. Inclusive, esse sentimento de revolta só é, finalmente, bem construído e bem amarrado nos minutos finais da produção, quando o espectador é colocado ao lado de Clara em sua jornada, e, até que enfim, estamos envolvidos com ela, sentindo toda a sua raiva e angústia. Mas, aí, o filme acaba, temos aquele sentimento de catarse, e o que fica é só isso: a catarse.

Se formos evidenciar alguma qualidade plena em "Aquarius", poderíamos citar a parte técnica. Mais elaborada do que em "O Som ao Redor", as imagens, de maneira isolada, realmente são muito boas. Mas, o problema maior está mesmo na direção. Kléber Mendonça, simplesmente, não consegue extrair o potencial que uma cena tem. Quando pensamos que tal acontecimento vai dar em alguma coisa, ele corta pra outra sequência que nada tem a ver com a anterior, deixando a sensação de incompletude. Simplesmente, não há feeling, time, nos acontecimentos. Uma sequência que era pra durar 2 minutos, no máximo, é alongada até passar a sensação do efeito desejado. Sem contar que as atuações também não ajudam. Sônia Braga faz o mínimo de sua interpretação para conferir algum carisma a Clara, e raramente, temos empatia por ela. E, mais uma vez, Kléber Mendonça desperdiça Irandhir Santos, que aqui, tem o um papel que não lhe exige nada, e nem assim, convence.



"Aquarius", no geral, é um terreno de possibilidades desperdiçadas. Não explora devidamente a história pessoal de uma boa personagem como Clara, nem consegue construir boas críticas em seus sub-textos quanto à especulação imobiliária, a luta de classes, entre outros temas. Mas, quem está à Direita, continuará odiando o filme. E, quem está à Esquerda, pelo que parece, continuará adorando-o. Nesse caso, a polarização venceu, e, entre vaias desconexas e aplausos sem sentido, o que sobra em termos de cinema é uma miscelânea de referências mal costuradas. Muito pouco para o que se propôs, mais uma vez. Tristes tempos.

P.S.: É bom salientar, que a polêmica em torno da classificação etária de "Aquarius" era justificada. O filme possui três cenas de sexo, duas delas, bastante explicitas, o que poderia fazer com que o filme fosse desaconselhável para menores de 18 anos, sem problemas. "Boi Neon", por exemplo, tem uma única cena de sexo, que não é nem tão explícita assim, e mesmo assim recebeu classificação de 18 anos sem protestos. Portanto, toda a celeuma foi uma polêmica inútil e mais uma vez balizada pela dicotomia politica e não pelas cenas em si.


Nota: 5/10.

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