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Dica de Filme

"Corpo Fechado" (2001)
Direção: M. Night Shyamalan


Filme de super herói é tudo igual? Bem, sim e não. É verdade que o convencionalismo tomou conta desse tipo de produção nos últimos anos, com filmes quase sempre no mesmo nível; ou seja, muito ruins. Mas, em contrapartida, também existem aquelas pérolas, que nem se parecem com algo do gênero, e, por isso mesmo, são belos representantes de como uma produção baseada em histórias em quadrinhos deveria ser. "Corpo Fechado" entra fácil nesse rol de filmes diferenciados, apesar de não ser algo, necessariamente, tão excepcional como se alardeia, tendo alguns defeitos pontuais que quase estragaram o desenrolar de uma ótima história.

Tudo começa de um jeito "tipicamente Shyamalan", como quem não quer nada, com cenas um tanto triviais, e então, a ação, em si, inicia, e algumas respostas vão sendo dadas ao longo da trama. Conhecemos David Dunn, ex-jogador de  futebol americano, que deixou sua profissão para se tornar segurança de estádios. De início, o estilo inconfundível do diretor logo aparece, com um jogo de câmeras bastante interessante, focando na conversa entre David e uma garota dentro de um trem, só que por uma perspectiva bem inusitada. É como se o cineasta não quisesse revelar detalhes dos personagens e da trama, usando, para isso, o artifício visual, e nos dissesse para irmos absorvendo a história aos poucos.




Quando o trem onde David está descarrilha, provocando uma tragédia, e ele é o único sobrevivente (ileso) do acidente, sua vida passa a ter um rumo inusitado. O que o perturba não é só a fatalidade que vitimou várias pessoas, mas, o fato de, estando lá, não ter sofrido nenhum arranhão. É nesse momento que surge Ellijah Price, um colecionador de histórias em quadrinhos, que propõe uma teoria interessante: a de que David tenha poderes sobre-humanos, como uma espécie de super-herói. Relutante com algo tão fantasioso, ele tenta entender o que, de fato, ele tem, ao mesmo tempo que administra uma vida pessoal conturbada, com um relacionamento à beira da separação.

O ponto forte da história está em mostrar como seria se um verdadeiro super-herói existisse, e como seriam as suas reações e as das pessoas mais próximas a ele. Um bom exemplo disso é o fato de sua esposa tentar ignorar que algo estranho possa estar acontecendo, ao mesmo tempo que o seu filho vê nisso uma coisa verdadeiramente fascinante. Pois, é, isso lembra, justamente, as famosas "histórias de origem" dos super-heróis, quando eles adquirem seus poderes, e começam a aprender a lidar com eles. O ritmo lento da narrativa contribui para que esse desenvolvimento seja bem alicerçado, sem tanta pressa dos fatos ocorrerem.




Só que as maiores virtudes de "Corpo Fechado" (o roteiro e a direção) também são o seu calcanhar de Aquiles, sendo responsáveis pelos momentos mais fracos da produção. É inegável que estamos diante de um filme de gênero inusitado, no entanto, às vezes, Shyamalan peca no excesso de estilo, não deixando a história fluir como se deve. Em algumas sequências, estamos percebendo nitidamente a sua direção, o movimentar de suas câmeras, e isso não é bom, pois, acaba tirando o foco do espectador. É também perceptível que a narrativa se arrasta demais, com acontecimentos não não importantes assim, ou que poderiam ter menos duração. Outra coisa que pode incomodar é o desenvolvimento dos personagens em alguns momentos. Por exemplo: às vezes, fica difícil entender porquê David e sua esposa estão a ponto de se separar ou qual a origem do filhos deles se portar como alguém com sérios problemas psicológicos em algumas situações. São coisas que acabam soando forçadas e sem nexo.

Porém, e isso será providencial, a história de Ellijah Price é bem pavimentada ao longo da trama, tanto é que a primeira sequência do filme mostra ele ainda bebê, e, de cara, o diagnóstico de uma grave enfermidade, que faz com que seus ossos sejam tão frágeis quanto vidro, e quebrem com muita facilidade. Esse contraponto, inclusive, da fragilidade de Ellijah, com a resistência de David é bem construída, com se os dois precisassem um do outro em suas forças e fraquezas. O fato de Ellijah ser um verdadeiro fanático por quadrinhos também consegue ter boas referências ao tema, como se esse dado não só servisse para a história, em si, mas, usado também como uma espécie de homenagem aos vários conceitos adjacentes à nona arte. A cena em que Ellijah explica a um possível comprador de um desenho que ilustra uma HQ, suas implicações como grande arte e não como mera brincadeira de criança, é exemplar nesse sentido.




No campo das atuações, todos estão só "ok", com nada de realmente especial. Bruce Willis, apesar do carisma, nem sempre consegue passar a empatia necessária que um personagem como David precisa, ao passo que Samuel L. Jackson entrega um Ellijah convincente, e, felizmente, não-caricato. O restante do elenco, no geral, está no piloto automático, não indo além do que lhes foi permitido. Com relação à direção de Shyamalan, estamos diante de um filme tecnicamente ótimo, mas, cuja grande quantidade de sequências estilosas não se fazem necessárias. Em "O Sexto Sentido", por exemplo, o cineasta foi mais contido, e o resultado foi melhor. Por sinal, o filme anterior do diretor também ganha deste aqui no sentido de dirigir situações com alta carga de emotividade, principalmente, no tacante aos núcleos familiares. Enquanto em "O Sexto Sentido" sentíamos tristeza e medo de uma maneira natural, aqui, precisamos nos esforçar um pouco para nos importarmos com os personagens.

O que temos, enfim, é um bom filme, recomendável dentro de sua proposta, mas, que poderia ter sido melhor trabalhado a fim de ter ficado mais envolvente. A história, de fato, é muito boa, e os trinta minutos finais empolgam, com um final realmente impactante. Mas, no meio disso, temos uma narrativa um tanto truncada, algumas situações mal exploradas, e uma direção que quer aparecer mais do que o filme em si. Mesmo assim, continua sendo um filme de super-herói "diferente", e que tenta fugir do óbvio. Mas, acaba sendo inevitável atestar o seguinte fato: "O Sexto Sentido", um baita terror psicológico, é bem melhor do que "Corpo Fechado", uma produção baseada em quadrinhos apenas inusitada, mas, não mais que isso. Ainda assim, interessante.


Nota: 7,5/10


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