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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Kingsman: Serviço Secreto" (2014)
Direção: Matthew Vaughn


Deixando qualquer preconceito de lado: não há nada de errado com cinema de escapismo. Sim, em tempos tão complicados como os nossos, o ideal é que toda arte tentasse, ao menos, ser minimamente engajada. Mas, se for da vontade da plateia, que haja também diversão descompromissada, passageira, do tipo "desligue o cérebro", e divirta-se. O problema é que, às vezes, nem mesmo os realizadores desse tipo de produção acreditam fielmente nessa lógica, e o que poderia ser um filme totalmente anárquico, descerebrado, alucinante e  avacalhado, acaba sendo apenas uma produção que tem os seus momentos de subversão, mas, na maioria do tempo, apela para clichês baratos e se leva a sério demais. Esse foi o principal problema de "Deadpool". E, é o que acomete este "Kingsman: Serviço Secreto", não de maneira tão negativa quanto no filme do mercenário tagarela, mas, que quase estragou o filme de Matthew Vaughn.

Baseado numa insana HQ de Mark Millar e Dave Gibbons, o filme pega todo aquele universo dos espiões secretos, estilo James Bond, e tenta fazer muita graça e ironia em cima dos clichês do gênero, e, verdade seja dita, algumas vezes consegue. Começando de maneira bem peculiar, ao som de Dire Straits, somos apresentados aos kingsmen, agentes não-governamentais encarregados de missões quase  impossíveis. Após a morte de um deles, o seu companheiro Harry vai visitar a viúva e o filho do agente. Numa rápida passada no tempo, 17 anos depois, Harry procura alguém para treinar na organização do Kingsman, e é aí que surge a oportunidade para Eggsy, o filho do agente morto em serviço anos atrás.




A grande sacada do roteiro é parodiar os filmes de espionagem, com, cenas pra lá de exageradas, e até algumas quebras de convenções, dando um bom frescor à trama. O agente Harry, por exemplo,é um verdadeiro gentleman, mas, passa longe de ser o galanteador que é James Bond. Não à toa, o personagem de "Kingsman" é mais sarcástico e mordaz, além de ser mais engraçado do que p tão famoso 007. Outro ponto positivo do roteiro foi em não colocar Eggsy como um simples aprendiz de Harry, mas, como alguém que tem que ganhar a vaga na corporação dos kingsmen, e o seu treinamento é empolgante e divertido, apesar de soar um tanto óbvio, visto que desconfiamos, de antemão qual o resultado final, mesmo que, a princípio, tudo dê errado para Eggsy.

E, é aí que está o grande defeito do filme: não ousar mais. Em determinados momentos, ele deixa de ser divertido e empolgante para se tornar sacal e previsível. Mas, ora, se a intenção era subverter por completo os filmes de espionagem, por que não deixar tudo menos clichê, menos com cara de deja vú. Quem já assistiu a produções similares, sabe muito bem como tudo termina, o que vai acontecer com o herói e o vilão, etc. É o velho produto com aparência de novo, mas, com os mesmos defeitos, usando os mesmos artifícios batidos. O terceiro ato, por exemplo, mesmo parecendo provocativo em algumas cenas (e, é também), possui as mesma soluções fáceis, as mesmas lutas coreografadas, o mesmo ritmo frenético de sempre. Ou seja,  mais do mesmo. O que é uma pena, pois os personagens são muito bons (vide o vilão Richmond Valentine), e não mereciam estarem numa história que se arrasta para a mesmice.




Isoladamente, porém, algumas cenas salvam o filme com uma bem-vinda transgressão. É o caso da violenta sequência que ocorre na Igreja, tudo ao som de "Free Bird", do Lynyrd Skynyrd. Sim, a cena pode ser acusada de ser gratuitamente sangrenta e transformar a violência em diversão, mas, com um pouco de atenção, podemos interpretar o motivo daquela carnificina, e até tecer umas boas críticas à sociedade. Por sinal, algumas críticas dessas são bem pontuais e interessantes, como a questão que gira em torno da corrupção dos políticos ou da simples exclusão social. Parecem assuntos meio inusitados para um filme assim, mas, acreditem, funcionam dentro da trama. 

As atuações não chegam a sere primorosas, mas, não comprometem. Samuel L. Jackson e Michael Caine estão se divertindo muito aqui, ao passo que Colin Firth faz um agente Harry com a elegância necessária. Só Taron Egerton, como Eggsy, que parece um pouco travado em suas ações, somente se soltando um pouco mais lá pro final do filme. O diretor Matthew Vaughn, que já havia passado para as telas de cinema outra obra de Mark Millar, "Kickass", faz, basicamente, o mesmo trabalho em "Kingsman": em alguns momentos empolga, e, em outros, não vai além disso. Fica a impressão que, no cinema, os realizados se auto-censuram para não passarem dos limites e serem  só um pouco mais ousados. Nos quadrinhos, tudo pode. Na tela grande, pouca coisa pode. E, isso tolhe muito as possibilidades de "Kingsman".




Quem quer um filme divertido, violento e alucinado em alguns momentos, e com alguma crítica pertinente aqui e acolá, certamente, vai gostar bastante de "Kingsman: Serviço Secreto". No entanto, pra quem não só conhece a obra original, mas, também espera mais no quesito cinema, vai sentir que está faltando muita coisa. Entra ano e sai ano, e os realizados não conseguem ir além do que o mero escapismo propõe, e é por isso, justamente, que esse escapismo é tão criticado, principalmente, se formos comparar com os filmes pipoca de décadas atrás. O sarcasmo e a ironia exigem mais do que meia dúzia de ideias requentadas. Ou se ousa, ou se avacalha de vez, ou, fica-se no mais do mesmo. 


Nota: 6/10


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