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Dica de Disco

"in•ter a•li•a"
2017
Artista: At The Drive-In


DEPOIS DE ANOS DE UM HIATO CONSIDERÁVEL, O AT THE DRIVE-IN VOLTA TÃO FEROZ QUANTO ANTES

O At the Drive-in foi uma dos últimos sopros de vitalidade no rock, indiscutivelmente. Escute o atemporal "Relationship of Command" e comprove. Só que após terem atingindo o auge com este petardo em forma de disco, simplesmente, resolveram encerrar as atividades. Metade foi formar o malucão The Mars Volta e a outra metade, o meio pedante Sparta. Eis que, 17 anos depois, temos uma reunião da banda original, e (bingo!) um álbum novo em folha. Mas, do ano de 2000 pra cá, muita coisa mudou no rock (ou melhor, não mudou quase nada, e esse foi o problema). Então, o que esperar dessa turma hoje em dia? Pra começo de conversa, um som bastante honesto, como eles faziam nos primórdios. Está bom assim? Não? Então, vamos detalhar mais.




A primeira dúvida: o som deles continua poderoso? Resposta: sem dúvida. A primeira faixa, "No Wolf Like The Present", bastante agitada comprova que o tempo não "acalmou" o grupo. Ao contrário: estimula aquela autêntica revolta quando o mundo parece estar de cabeça para baixo. E, que melhor momento para o At the Drive-in ressurgir das cinzas, não é verdade? Nessa música de abertura do disco , inclusive, eles já mandam um recado bem claro: "From Potemkin mills / Where the winds erase / They use our past to evict us" ("Das fábricas de Potemkin / Onde os ventos apagam / Eles usam o nosso passado para nos expulsar"). Não menos potente é a canção que vem a seguir, "Continuum", mostrando por A + B que o At the Drive-in não perdeu a capacidade de unir barulho e melodia em doses milimetricamente iguais.

A terceira faixa, "Tilting At The Univendor", vai seguindo na mesma pegada das primeiras, sendo apenas um pouco mais melódica que elas, porém, não perdendo a energia. Sem tempo para respirar, vamos sendo logo invadidos pela quarta canção do disco, "Governed By Contagions". E, que canção (ou, melhor: que letra!). Uma das melhores partes dela é: "That’s the way the guillotine claps / He’s the one who’s governed by contagions" ("Essa é a maneira como a guilhotina aplaude / Ele é aquele que é governado por contágios"). Quem duvidava que o At the Drive-in ainda podia mandar bem nas letras provocativas, eis aí a prova. Música pra se escutar na mais alto volume!

E, os 200 km/h simplesmente não param. "Pendulum In A Peasant Dress" tem alma, pele, sangue e ossos totalmente fincados no punk. É somente uma pena que ela seja tão curta em termos de duração. Por sinal, essa é a tendência desse disco: músicas, geralmente, muito curtas. O que não é, necessariamente, um problema, mas, que acaba deixando aquela sensação de que o disco poderia (e, deveria) ser mais longo, ou com uma duração maior das canções, ou com mais músicas no seu playlist. Em todo caso, o sentimento de urgência acaba sendo salutar num mercado em que o rock está tão anêmico e pasteurizado. E, o álbum segue com a ótima "Incurably Innocent", que possui um dos melhores refrões do disco.


O início de "Call Broken Arrow" dá a impressão de que o disco dará uma "amansada" no som. Ledo engano. Trata-se de mais uma mistura perfeita de quebradeira com belas melodias, e um letra bem surreal: "Desecrate it, Desecrate it all / Call broken arrow and level this ground / Desecrate it, Desecrate it all / Call broken arrow this is all his fault" ("Descreva, Descreva tudo / Chame de seta quebrada e nivele este chão / Descreva, Descreva tudo / Chame de seta quebrada pois isso é tudo culpa dele"). Decididos a uma verdadeira "destruição sonora", o At the Drive-in chega a "Holtzclaw", oitava faixa, e que só sossega os ânimos dos ouvinte em algumas passagens mais "calmas", digamos assim, porém, é só um mero descanso, pois, a canção é uma bela de uma explosão nos sentidos.

Mas, como nada é perfeito, a antepenúltima faixa do disco, "Torrentially Cutshaw" mostra um certo desgaste da fórmula da própria banda, apesar do nítido esforço em fazer algo marcante. No entanto, acaba sendo só mais uma canção iguais a tantas outras daqui. Ironicamente, o álbum volta a ser ótimo com "Ghost-Tape No.9", que poderia ser classificada como uma espécie de "balada" do grupo. Mas, uma "balada", diga-se, pesada, classuda, soturna, daquelas que o Depeche Mode costumava fazer. O grand finale vem com "Hostage Stamps", que começa climática, e, pra variar, explode num som bastante poderoso. Não chega a ser uma das melhores do disco, mas, sem dúvida, é muito boa, e encerra "in•ter a•li•a" da forma que tinha que ser: com muita energia.

Agora, é bom que se diga: "in•ter a•li•a" está num patamar um pouco abaixo de "Relationship of Command", mas, é melhor do que muita coisa que o Mars Volta e o Sparta (as respectivas bandas dos integrantes do At the Drive-in) fizeram. E, isto, por si, já é formidável, pois, mostra que, mesmo depois de tantos anos, eles mantiveram a essência de seu antigo grupo. Os destaques, por sinal, continuam sendo o insano vocalista  Cedric Bixler-Zavala e o inventivo guitarrista Omar Rodriguez-Lopez. São eles que conseguem dar identidade ímpar ao At the Drive-in, fazendo do som deles algo (ainda) único. E, "in•ter a•li•a" pode não chegar a ser o melhor disco de 2017 (ainda temos um bom caminho pela frente, e muita coisa boa pode ser lançada até lá), mas, com certeza este é um álbum de rock'n roll que estávamos precisando ouvir a um bom tempo.


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Nota: 8,5/10



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