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Filme Mais ou Menos Recomendável

"Vida"
2017
Direção: Daniel Espinosa


FICÇÃO CIENTÍFICA DE HORROR COMEÇA ENVOLVENTE, MAS, VAI PERDENDO FORÇA, E CULMINA EM MAIS UM EXEMPLAR GENÉRICO DESSE TIPO DE FILME

Procura-se vida inteligente. Na Terra? Sim, aqui mesmo. Mais especificamente, em Hollywood. E, mais especificamente ainda, no gênero terror/horror. Já virou estigma, e parece que os realizadores desse tipo de filme fazem questão de reforçar o seguinte estereótipo: todo personagem de filme de terror/horror é inacreditavelmente burro, forçando o espectador a embarcar numa sucessão de falhas que acabam tirando todo e qualquer clima tenso que esse tipo de produção possa ter. Só esse ano, até agora, foram nada menos que três exemplares desse tipo de cinema a estrearem por aqui com essa irritante característica: "A Autópsia", "Corra!" e "The Void" (este, o melhorzinho de todos). Então, eis que surge a ficção científica "Vida", que promete uma simples e honesta homenagem a "Alien, o 8º Passageiro", mas, que, ao longo de sua projeção, não consegue, sequer, manter-se na média de um bom filme.




"Vida", sem dúvida, começa bem, com um bonito plano sequência de cerca de 10 minutos, que vai ambiento o espectador ao interior da estação espacial onde irá se concentrar toda a ação. Mesmo com a referência óbvia ao recente "Gravidade", essa cena é muito bem feita. No decorrer do tempo, a apresentação dos personagens também foge (um pouco) do óbvio, mostrando a tribulação de forma bem natural, sem grande excessos. Talvez, o personagem  Rory Adams, interpretado por sempre afetado Ryan Reynolds, fosse dispensável à trama, mas, felizmente, nem esse aspecto incomoda tanto. Os que serão realmente importantes para a trama são apresentados de uma maneira até sutil, mas, convincente: David Jordan, Miranda North e Hugh Derry. Este último, por sinal, será responsável pelo começo do terror que infestará a nave espacial, e também por colocar o filme ladeira abaixo.

O problema todo reside em o roteiro buscar soluções fáceis (e, forçadas) demais após o término do primeiro ato. Um exemplo claro disso é o fato da estação ter custado bilhões de dólares, e um dos cientistas manejar um estranho espécime alienígena encontrado em Marte usando apenas luvas no interior de uma redoma de vidro. Braços mecânicos para facilitar esse tipo de trabalho, ninguém pensou. E, isto é só o começo, pois, depois que algo terrível acontece, praticamente todos os personagens passam a fazer algum tipo de besteira. E, isto é péssimo, já que quebra (e, muito) o ótimo clima de terror que se impõe nesse segundo ato, com cenas realmente assustadoras (e, até bem violentas). Mas, pouco fica de impacto, visto que o roteiro, que começou como uma ficção científica tão cativante, converte-se num suspense raso, e que já vimos inúmeras vezes antes, de "Alien" para cá, com resultados bem melhores.




Outro problema que persegue "Vida" são os seus personagens, pouco carismáticos, praticamente sem força dramática alguma. Alguns artifícios são usados para tentar dar mais humanidade a eles, como no caso do personagem Sho Murakami, que acaba de ser pai. Porém, é tudo tão forçadamente caricato, que pouco ou nada nos interessamos por eles. Provavelmente, o melhor personagem seja mesmo o do Dr. David Jordan, feito pelo ator Jake Gyllenhaal, que, com sua atitude um tanto fria no início, acaba se configurando como uma peça-chave para o final da trama. Porém, nem isso consegue chegar, sequer, perto da inesquecível Tenete Ripley, mesmo que pareça injusta qualquer forma de comparação entre ambos os filmes. No entanto, já que a questão era fazer uma espécie de homenagem ao clássico setentista de Ridley Scott, que, pelo menos, a construção dos personagens e da trama fossem melhor elaborados. 

Mesmo com o pé fincado na inverossimilhança, os segundo e terceiro atos, são, pelo menos, bem angustiantes em alguns momentos, criando uma boa tensão até o final, mesmo que já saibamos como tudo vai, mais ou menos, terminar. E, os problemas, aqui, são os clichês de sempre: sucessão de erros que favorecem o vilão, histórias melodramáticas nos momentos cruciais, e, claro, mais algumas tolices cometidas pelos personagens. Ao menos, é bom dizer, nos instantes finais, os tripulantes sobreviventes conseguem realizar ações até coerentes, e o desfecho interessante ainda dá margem a uma espécie de franquia. Bem, se isso realmente acontecer, que o próximo roteiro possa ser bem melhor redigido, e que o diretor (quem quer que seja) encontrar atores melhores para interpretarem os personagens de seus filme.




"Vida" não é necessariamente ruim, mas, no primeiro ato, o filme prometeu uma coisa, e, em seguida, entregou outra bem diferente (e, inferior). Além disso, caiu na velha armadilha dos personagens burros em produções desse gênero, o que enfraqueceu consideravelmente o resultado final. Como diversão passageira, daquelas de se assistir sem nenhuma expectativa, "Vida" pode até agradar, porém, não será, de maneira alguma, marcante. Uma pena, já que se trata de mais um filme com uma boa premissa, e que se rende a convencionalismos baratos. Continuamos, portanto, no aguardo de algo que tenha, de fato, bastante qualidade dentro desse gênero, ainda esse ano, se não for pedir muito aos realizadores de cinema que não subestimem tanto a inteligência do espectador.


Nota: 6/10


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