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DEBATE SOCIAL

FIASCO DENTRO E FORA DE CAMPO


A Alemanha pode nos ter ensinado mais do que pensamos


A derrota do Brasil nas semi-finais da Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha é um reflexo, pura e simplesmente. A goleada de 7x1 trata-se da perfeita analogia do que significa esse evento para o país: uma vergonha, em amplo sentido.

Tudo começou em 2007, quando o então presidente Lula anunciou que a sede do torneio para 2014 seria aqui. À época, a alegria foi imensa, e tanto é, que hoje muitos reagem às críticas contra a Copa questionando porque elas não foram feitas naquele momento. Bem lógico de responder: o discurso foi estrategicamente belo e comovente, mas o que foi entregue ficou bem longe do prometido.


Presidente da FIFA, Joseph Blatter anunciando o "ganhador" 
da disputa para a sede da Copa em 2007


Lula não disse, por exemplo, que quase a totalidade dos recursos para o evento viria da iniciativa pública. O que falou foi que 70% seria da privada, e o restante, da pública, somente destinados à obras de mobilidade urbana. Também não mencionou que 200 mil pessoas precisariam ser desalojadas de suas residências para a construção de viadutos, avenidas e estádios para a Copa, e que muitas delas não teriam justas indenizações. Será que Lula nos disse que 10 operários morreriam nas obras dos estádios no decorrer de 1 ano, como, de fato, ocorreu entre 2013 e 2014?


Despejos em massa fizeram parte dessa Copa do Mundo


Quando a realidade bateu à porta, e mostrou um panorama bem diferente do desenhado, muitas pessoas, em vão, saíram às ruas para protestar em 2013. Coitadas... Não somente foram agredidas pelo aparato policial do Estado, como foram ridicularizadas pela maioria da população, que tratou logo de tachar os manifestantes de vândalos, vagabundos, alienados, etc. Os que protestaram há cerca de 1 ano, tentaram um retorno às vésperas dessa Copa, porém, de maneira mais tímida, e, no entanto, ainda sofreram com a mesma repressão de antes (do Estado, da polícia, e da grande parcela - inerte - da população).


Como era de se esperar, protestos contra a Copa 
foram duramente reprimidos


Inicia-se, então, a Copa do Mundo 2014, e praticamente todos resolvem deixar de lado os problemas oriundos desse evento, e passam a torcer pela Seleção freneticamente. Na abertura dos jogos, todavia, ocorreu fato inusitado: a então presidente Dilma Roussef foi vaiada e xingada por uma parte da torcida no estádio do Itaquerão, em São Paulo. O curioso foram as reações a esse fato. Começaram a chamar os simplesmente mal-educados que fizeram isso de "elite branca". Tudo bem que futebol não é pra refletir muito, mas esse termo, no fundo, carrega algo de preconceituoso. Ora, quiseram dizer com isso, indiretamente, que educação (a de berço e não a escolar) tem a ver com classe social e cor da pele. Seria o mesmo que falar "ralé negra". Ficou feio pra todo mundo (Dilma, quem vaiou e quem criticou as vais).


Vaias a Dilma marcam o início dessa Copa. Mas, a culpa 
é mesmo dessa tal "elite branca"?


Paralelo a isso, continuamos a torcer. Camisas e bandeiras verde e amarelas, sorrisos despreocupados nas redes sociais e muito patriotismo falso. Ser brasileiro virou sinônimo de torcedor de Copa, e ai daquele que ousasse criticar o torneio. Era, imediatamente, colocado no rol dos marginalizados, dos revoltados sem causa, dos, enfim, pessimistas. Nenhum argumento era levado em consideração quando o negócio era torcer para a Seleção.

Já no final do evento, fatos bem lamentáveis ocorreram, e, como sempre, bastante ignorados. Primeiro deles, um viaduto em Belo Horizonte desaba, matando 2 pessoas e ferindo 23. A mídia, em geral, deu pouco espaço a essa tragédia, por dois motivos. Um deles, é que o mundial ainda estava em andamento, e o foco, portanto, era outro. Porém, o pouco espaço dado a esse fato foi mais devido ao viaduto ter sido uma das obras dessa Copa do Mundo! Mal planejado, mal construído e mal vistoriado, seu desabamento foi, portanto, inevitável. Alguns dizem, até, que o prefeito do local havia retirado as vigas de sustentação, para embelezar melhor a obra à vista dos turistas!


Viaduto construída para essa Copa, em BH, desaba e expõe, 
mais ainda, a fragilidade desse evento


Só que, dois dias depois dessa tragédia, o foco do brasileiro médio, em massa, seria outro: o jogador Neymar, durante o jogo contra a Colômbia, recebe uma dura falta de Camilo Zuñiga, é hospitalizado, e precisa ficar fora do torneio. A questão é que Não só muitas pessoas passaram os dias seguintes se debulhando em lágrimas e desejando melhoras para Neymar, como algumas delas começaram uma verdadeira campanha do ódio ao jogador Zuñiga, chegando até a sugerir o espancamento de sua mãe e o estupro de sua filha. Claro que a maioria foi e é contra a atitude dos imbecis que disseram isso; só que essa maioria se calaram, ficou muda, preferindo continuar chorando por Neymar. Ignoraram, por completo, as agressões sofridas pelo jogador colombiano, como se estivessem corroborando, intimamente, com isso. Infelizmente, nesse caso em específico, o óbvio vem às claras: em nome do futebol, estamos nos tornado seres, cada vez mais, bestiais.


Jogador Camilo Zuñiga: vítima da intolerância, do preconceito, da estupidez 
e da omissão do torcedor brasileiro, em geral


E, agora, o Brasil é eliminado dessa Copa pela Alemanha, num jogo que mais pareceu uma humilhação. Porém, essa goleada já estávamos sofrendo desde 2007, e só agora, muitos perceberam (de um ponto de vista ainda equivocado, diga-se). Perdemos muito mais do que um jogo; foram inúmeras as vítimas dessa Copa do Mundo de 2014. Que, ao menos, essas eleições políticas que se aproximam em Outubro próximo sejam um pouco da nossa redenção. Pois, já foi provado, absolutamente nada fica impune.


O que nos resta? Votar bem e consciente 
para essas próximas eleições!


ERICK SILVA, 09/07/2014.

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