Pular para o conteúdo principal
DICA DE DISCO

"AMORICA" (1994)




Chega um momento na carreira de toda banda que quando atingem um grau único de identidade, muitas permanecem em sua zona de conforto, fazendo sempre a mesma coisa, com resultados variados. Outras, no entanto, arriscam-se a experimentar novas sonoridades e até novas posturas. Isso pode reduzir drasticamente o número de fãs e o sucesso alcançado até então, mas é um tipo de atitude que atrai quem realmente gosta do grupo, e ainda mantém uma dignidade artística que quase sempre será perene.




Nos anos 90, temos como exemplos Faith no More, Nirvana e Primal Scream, que optaram pelo risco, e se saíram muito bem com os discos "Angel Dust", "In Utero" e "Screamadelica", respectivamente. Um dentre eles, porém, conseguiu os melhores resultados possíveis, e trata-se da banda Black Crowes, ao lançar o maravilhoso "Amorica". Quando tinham feito o álbum "Shake Your Money Maker", 4 anos antes, suas influências eram bem claras: Rolling Stones e Faces, com uma pitada de Led Zeppelin. Impressão, essa, reforçada no disco seguinte: "The Southern Harmony and Musical Companion". Querendo, então, mostrar que podiam andar com as próprias pernas, sem deixar as características do seu som bem tocado de lado, fizeram "Amorica", seu melhor disco até hoje.




Ele já começa com um dedilhado (um batuque quase inclassificável), prenunciando a estupenda "Gone". Não menos eles nos oferecem na canção seguinte, "A Conspirancy", um rock'n roll pra ninguém botar defeito. "High Head Blues" foi o primeiro single do álbum, e mostra uma banda experimentando, mas bastante entrosada. Somente quando chega o blues rasgado de "Cursed Diamond" é que vislumbramos um pouco do que eles eram nos primeiros discos.




A acústica "Nonfiction" tem um pé fincado nos Stones, fase "Exile On Main Street", mas com a cara do próprio Crowes. Outros destaques que precisam ser mencionados são o rock swuingado de "P. 25 London" e a belíssima balada "Wiser Time". "Amorica" só derrapa numa canção, "Ballad in Urgency", muito lenta e pouco inspirada, e que destoa do álbum como um todo.




O saldo geral é que o Crowes estranhou muita gente com esse trabalho, porém, manteve-se como uma das melhores e mais criativas bandas de rock daquela década. Com muita personalidade, instrumentistas talentosos e um vocalista fenomenal (Chris Robinson), o grupo conseguiu ir além de suas influências, e compôs algo verdadeiramente marcante. É um tanto difícil, convenhamos, mas que com algumas audições ele se torna, sem problemas, discoteca básica em qualquer coleção que se preze.


NOTA: 9,5/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Documentário

"O Ódio na Internet" (2014)
Direção: Rokhaya Diallo e Mélanie Gallard.


Infelizmente, nos últimos tempos, a Internet vem se transformado numa plataforma muito eficiente para disseminar o ódio e a intolerância. Uma das vítimas dessa recente "modalidade" na Rede foi a jornalista francesa Rokkaya Diallo. Muito ativa nas redes sociais, ela sempre expôs muito de sua opinião nelas, e isso sempre gerava discursos enraivecidos contra sua pessoa. A gota d'água foi quando recebeu, via Twitter, uma ameaça de estupro: "Alguém tem que estuprar a idiota da Rokhaya. Assim, o racismo acaba." Em ataques anteriores, Rokhaya ignorou as ofensas. Desta vez, no entanto, decidiu revidar, e foi daí que surgiu a ideia deste documentário.
Primeiro, procurou um advogado para saber que atitude tomar. Surpresa, viu que os trâmites para se denunciar um crime virtual é mais complicado do que se imagina, principalmente, devido à empresa que controla determinada pla…