Pular para o conteúdo principal
DICA DE FILME

"BATISMO DE SANGUE" (2006)




Como assunto histórico ou debate sócio-político, a Ditadura Militar Brasileira continua sendo uma incógnita, e, por isso mesmo não param de surgir inúmeras versões (e visões) sobre o tema, principalmente na arte. O filme "Batismo de Sangue" é um bom exemplar recente dessas tentativas, onde a proposta foi falar da participação dos frades franciscanos nessa época, e, por conseguinte, da Igreja Católica como um todo.

A produção, dirigida com competência por Helvécio Ratton, baseia-se no livro de mesmo nome de Frei Betto, um dos muitos militantes religiosos desse período, e que, como tantos outros, foi preso, mas não sofreu torturas físicas por ser sobrinho de militar. Sorte, essa, que não teve Frei Tito, que foi detido e barbaramente espancado pelo pessoal comandado pelo delegado Freury. Podemos dizer, inclusive, que Tito é o grande protagonista do longa, cujo foco tenta mostrar todos os horrores que sofreram os presos políticos da época, e ainda fazendo uma bem-vinda análise da validade de tanto ter lutado pelo povo, sendo que este, em sua maioria, pouco se importava com o que acontecia nos porões da ditadura.




Para pontuar tudo isso, o filme começa e termina com a mesma cena: o suicídio de Tito, que, exilado na França, não conseguiu se recuperar dos traumas sofridos na prisão. E, é justamente o drama dele, unido à ótima interpretação de Caio Blat, as maiores qualidades de "Batismo de Sangue". Isso porque, no geral, o longa, mesmo bem intencionado, por vezes, mostra-se um tanto esquemático. Algumas cenas parecem discursos de frases feitas e outras, aulas de história sobre o assunto. São momentos que carecem de espontaneidade, o que, provavelmente, tenha sido culpa dos atores, já que o enredo é bem direcionado e o roteiro, enxuto.




Já, em termos técnicos, o filme é muito bom, com uma reconstituição competente do período. Há até a reprodução de cenas inusitadas e interessantes, como o código que alguns militantes de esquerda usavam para se identificarem no meio da rua ao portarem um exemplar da revista Veja. As cenas de tortura também são muito bem realizadas, mas com um adendo: elas resvalam na perigosa linha tênue da contemplação, o que pode gerar, na cabeça de alguns que assistirem, uma apologia à violência, ao invés de uma crítica a essa prática (essa, a real intenção de tais cenas no longa, acredito).




Porém, entre altos e baixos, o resultado é positivo e satisfatório. Mesmo com algum maniqueísmo, a produção pode suscitar importantes reflexões não só que cabem à época da Ditadura Militar, mas, que são pertinentes nos dias atuais também, como a truculência das autoridades do Estado. "Batismo de Sangue" cumpre, pois, sua função, e isso já basta.


NOTA: 8/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lista

10 Melhores Discos Nacionais de 2017 (Até Agora)


Sim, meus caros, não está nada fácil. Achar os "10 melhores discos nacionais lançados em 2017 (ate agora)" demandou bastante tempo, mesmo porque, até no meio do cenário indie, anda rolando uma certa mesmice em termos de sons e atitudes, com bandas soando rigorosamente iguais umas as outras. Está faltando identidade e carisma até na nossa música alternativa, infelizmente. Mas, lamentações à parte, esta é uma pequena lista que se propõe a ser um guia atual para quem deseja saber o que anda acontecendo de bom por aí. 
Torcer, agora, para que os próximos meses sejam mais produtivos no sentido de termos mais lançamentos bons como estes.
🎵


10°
"Feeexta"
Camarones Orquestra Guitarrística


"Canções Para Depois do Ódio"
Marcelo Yuka


"Triinca" Triinca

"Galanga Livre" Rincon Sapiência

"Vênus" Tupimasala
Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…