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DICA DE DISCO

"SEM NOSTALGIA" (2009)




A MPB, hoje, vem se mostrando um museu "sem grandes novidades". Outrora uma das mais inventivas expressões artísticas que tínhamos, atualmente, temos meio mundo de artistas que insistem em fazer uma música "sem sal", com uma mistura chata, geralmente, um samba muito dispensável pra gringo ver (Seu Jorge que o diga...). Tirando Lenine e os atuais trabalhos de Caetano Veloso, pouca coisa se salva nessa "seara". Por isso mesmo que um cantor e compositor como Lucas Santtana precisa ser cada vez mais conhecido.




Oriundo da Bahia, ele consegue fazer uma música que aponta novos caminhos, sem ser pseudo-revolucionária. E, ainda reverencia o que de melhor tivemos no passado sem ser saudosista. Em suma, trata-se da boa e (inúmeras vezes) mal usada atitude. Esse disco, lançado há cinco anos, é sua obra mais rica; um mosaico de sons, balanços, poesias e ritmos que só alguém bem antenado poderia produzir. É do tipo pra se ouvir em qualuer ocasião, seja dirigindo, conversando com os amigos ou, simplesmente, em casa, lendo tranquilamente um livro.

O CD tem em suas três primeiras músicas uma grande quantidade de influências, mas com uma identidade que já se instala já numa segunda ouvida. "Super Viola Mashup" e "Who can say which way" são o grande destaque desse começo, num ótimo cartão de visitas. Então, o álbum parte pra uma bossa-nova-lounge viciante, "Cira, Regina e Nana", cuja sonoridade ora se "cala", ora suaviza, ora explode.




É aí que surge "Amor em Jacumã", uma das melhores do disco, e, não por acaso, a mais brasileira e radiofônica delas. Uma canção fabulosa, que bebe na fonte de Moaraes Moreira e Caetano Veloso. Há também algumas esquisitices das boas, como a instrumental "Natureza no1 em Mi Maior", cuja sua inspiração, segundo o próprio Lucas, foi o barulho de insetos que ele ouviu no Museu de História Natural, em Londres. E, há músicas mais calmas, lentas e até reflexivas, caso de "Cá pra nós" e a bela "Night time in the backyard".

"Sem Nostalgia" é um álbum completo, do começo ao fim. Mostra que a insipiente MPB pode nos surpreender positivamente, e, se quiser, sair do lugar-comum ao qual ficou confinada nos últimos anos. Caso dependa de artistas como Lucas, certamente, estamos no rumo certo.




Ouçam sem moderação, sem nostalgia e sem amarras.


NOTA: 9/10.

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