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DICA DE LIVRO

"A MÃE" (1907)




"Todos os dias, o apito pungente da fábrica cortava o ar esfumaçado e pegajoso que envolvia o bairro operário e, obedientes ao chamado, seres sombrios, de músculos ainda cansados, deixavam seus casebres, acanhados e escuros, feito baratas assustadas. Sob o frio amanhecer, seguiam pela rua esburacada em direção às enormes jaulas de pedra da fábrica que os aguardava, desdenhosa, iluminando o caminho lamacento com centenas de olhos empapuçados. Os pés pisavam na lama. Vozes sonolentas emitiam roucas saudações, palavrões dilaceravam, raivosamente, o ar. Mas, eram diferentes os sons que acolhiam os operários: pesadas máquinas em funcionamento, o resfolegar do vapor.

(...)

Com o pôr-do-sol, cujos raios vermelhos iluminavam, cansados, os vidros das casas, a fábrica vomitava os seres de suas entranhas de pedra, como se fossem escória, e eles voltavam a espalhar-se pelas ruas, com o rosto enegrecido pela fuligem, sujos, fedendo a óleo, com o brilho branco dos dentes famintos. Agora, suas vozes demonstravam mais vida e até mesmo alegria. Por ora, a tortura violenta do trabalho havia terminado. Aguardava-os, em casa, o jantar e o descanso.

O dia consumira-se na fábrica, as máquinas sugaram de seus músculos toda a energia de que necessitavam. Mais um dia irremediavelmente riscado de suas vidas, os homens haviam dado mais um passo em direção ao túmulo, mas eles, anteviam, apenas, o gozo imediato do descanso, as alegrias do bar repleto de fumaça, e sentiam-se satisfeitos.

(...)

Afastavam-se em silêncio daqueles que diziam coisas novas. Aqueles seres, então, desapareciam, em busca de outros lugares, ou ainda, se continuavam na fábrica, buscavam o isolamento, quando não sabiam confundir-se com a massa despersonalizada de operários...

Levando esse tipo de vida durante cerca de cinquenta anos, o homem morria ."




É exatamente dessa maneira que começa o livro "A Mãe", sem meias palavras, sem meias verdades, apenas a dolorosa constatação de vidas vazias de propósito. Tão somente seres que se contentam em existir, e nada mais. Traçando esse panorama desolador, o escritor russo Maksim Górki, ateu convicto e militante por natureza, mostra-nos a história de Pelaguéia Nílovna (uma mãe) e Pável Vlassov (seu filho).

No entanto, assim como no começo do livro, o autor não nos revela, de cara, seus personagens principais, relatando, antes, como era Mikhail Vlassov, marido de Nílovna e pai de Pável. Nisso, Górki é estupendo, pois vai construindo todo o ambiente que justifica as ações futuras dos protagonistas, desde as condições de trabalho dos operários, até pessoas próximas a elas, como parentes e amigos.

Só a partir daí, conhecemos, realmente, mãe e filho. Nílovna, brutalizada tanto por aquele ambiente de opressão entre os trabalhadores, como pela violência sem sentido de seu marido, que a espancou quase todos os dias em que foram casados, apenas "sobrevive", reproduz aquele estilo peculiar de quem não vê nenhuma perspectiva a não ser comer e dormir, além de criar seu filho, principalmente após a morte de seu marido Mikhail.




Porém, algo de "errado" começa a acontecer com Pável. Depois de sua primeira bebedeira, em que chegou completamente embriagado em casa, ele começa a ter hábitos bem diferentes da maioria dos jovens de sua região. Ao invés de viver em bares, brigando, ele passa a ficar mais recluso, indo à poucas festas, mas voltando totalmente sóbrio. Passa a ler (muito). Coleciona livros (diversos). Tem um palavreado completamente distinto dos demais. E, isso preocupa a mãe.

A partir desse momento, os temores de Nílovna tornam-se palpáveis: seu filho está estudando, envolvendo-se com a ideologia de suas leituras, e, por conseguinte, está tendo uma consciência diferente da maioria, passando a ter reuniões em casa com amigos para montarem revoltas e manifestações contra o poder vigente no lugar. Revolução, passeatas, mudança, e tantas outras palavras passam a fazer parte do cotidiano daquela casa, sempre aos olhos atentos de Nílovna.

O interessante nesse livro é que ele poderia, a despeito de seu título, facilmente focar-se na luta de Pável contra a opressão que a classe operária sofre. Todavia, é Nílovna a personagem principal da obra, e isso fica bem claro, quando Górki mostra desde a sua vida sem propósito até o gradativo desenvolvimento que passa, sob a influência de Pável e seus amigos. A mãe passa a adquirir conhecimentos e consciências que nunca poderia imaginar em ter, e mesmo assim, sua essência permanece a mesma, tanto é que ela continua religiosa, apesar do ambiente ateísta em que está convivendo.

A mudança de mentalidade da mãe é o grande mote do livro, pois expõe, claramente, o poder de influência que as boas ideias podem ter ao "abrir os olhos" daqueles que só enxergam o banal do dia a dia. Não à toa, ainda hoje, o conhecimento e a leitura são consideradas "armas perigosas" por quem está no poder. E, em termos de atualidade, "A Mãe" também impressiona. Como não traçar um paralelo com o hoje quando o autor cita que as autoridades que reprimem o povo estão sendo usadas como bucha de canhão, e, no entanto, também são povo e, igualmente, explorados?




A trama do livro também é muito envolvente, muito devido ao fato da maioria dos escritores russos terem esse magnífico dom da escrita, onde nenhuma palavra está fora de lugar ou faltando. Isso possibilita uma construção de personagens e ações realmente dinâmica, o que faz com que a leitura seja rápida e agradável, apesar da tensão do tema abordado.

Entre prisões, depoimentos contundentes de como o sistema funciona e o total envolvimento de Nílovna com a luta em prol da classe operária (chegando a levar livros "proibidos" e manifestos para outras cidades), fica um livro essencial, que não fala, necessariamente, do relacionamento de uma mãe com seu filho, mas da influência das ideias, da importância do constante conhecimento e da necessidade de tomada de consciência perante o que está errado.

No tribunal, sob julgamento, um trecho do depoimento de Pável, resume bem o poder do livro "A Mãe":

"A sociedade que considera o homem apenas como um instrumento de seu próprio enriquecimento é desumana, hostil, e não podemos conformar-nos com sua moral, ambígua e falsa; repudiamos o cinismo e a crueldade com que subjuga o indivíduo, e queremos e vamos lutar contra todas as formas de dominação do homem, contra todos os atos de violência contra o ser humano em favor de interesses".


NOTA: 10/10.

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