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DICA DE FILME

"O SÉTIMO SELO" (1956)




Analisar um clássico não é das tarefas mais simples, afinal, praticamente tudo, e mais um pouco, já se disse a respeito de obras amplamente conhecidas. Com esse pensamento, o ideal é assistir a um filme como "O Sétimo Selo" sem maiores pretensões, esquecendo até que seu realizador se trata do tão falado Ingmar Bergman. O resultado, com ou sem o peso de ser um clássico, é que esse continua sendo um dos melhores filmes já feitos.

A força do longa reside no fato de unir situações aparentemente díspares, como humor e questionamentos filosóficos; coisas simples, rotineiras, com inquietações que perturbam o ser humano há milênios, como o vazio da vida e o medo da morte. Algumas cenas de "O Sétimo Selo" são bastante pungentes nesse aspecto.




Por exemplo, num determinado momento, um cavaleiro medieval interroga um pintor:

- Por que você pinta coisas tão tristes como a morte?
- Para que as pessoas se lembrem de que irão morrer.
- Mas, desse jeito, elas não ficarão felizes.
- E, quem disse que elas precisam ficar felizes o tempo todo? É preciso assustá-las de vez em quando.
- No entanto, se assustá-las, elas poderão aprender a pensar, e ficarão com mais medo ainda!




O filme questiona de forma bem clara a ânsia do homem em querer continuar vivo, mesmo que este tenha uma existência vazia, cheia de situações horríveis ao seu redor. Uma cena em questão ilustra muito bem isso. Num clima quase bucólico, os personagens principais estão num raro momento de sossego, e o cavaleiro interpretado por Max Von Sydow diz:

- Vi tantas desgraças no mundo que quero guardar esse momento na lembrança. Um momento em que estou reunido com meus amigos, uns cantando, outros tendo seus rostos iluminados pela luz do sol... Que eu guarde essa lembrança com firmeza pelas minhas mãos com a mesma firmeza que seguro essa tigela com leite!




Durante "O Sétimo Selo" há, claro, o esperado embate com a morte, a figura que mais "tem trabalho a fazer nesses dias", e onde a famosa cena dela jogando xadrez com o cavaleiro sintetiza bem o medo que temos dela, e por consequência, do desconhecido. Num determinado momento, é questionado à figura da morte:

- É inconcebível compreender Deus. Por que ele se esconde por trás de promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé nele, se não temos fé em nós mesmos?




E, é nessa atmosfera que o filme é levado, tendo como única certeza do destinos dos personagens, suas derradeiras partidas. Atuações maravilhoas (em especial, de Max Von Sydow) e cenários perfeitos completam esse que é um admirável exemplar da autêntica sétima arte.

No final, as perguntas não serão respondidas, mas, de fato, esse não deveria ser o intuito de Bergman. Como todo gênio em sua área de atuação, ele questiona dogmas e ideias pré-concebidas para criar uma obra que dialoga de forma direta com seu interlocutor (afinal, os questionamentos apresentados são os nossos, hoje e sempre).

Um filme verdadeiramente belo. Triste e perturbador, mas necessário.


NOTA: 9,5/10.

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