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DICA DE FILME

"O PREÇO DO AMANHÃ" (2011)




Andrew Niccol é um cineasta bastante incomum. Seus filmes têm jeito de blockbusters, mas, quando vistos mais atentamente, passam mensagens que não costumam-se ver no cinemão hollywoodiano. Em "O Show de Truman", por exemplo, ele já preconizava a febre dos reality shows e fazia uma bem-vinda análise ao culto às celebridades e a transformação da vida em espetáculo. Já, em "O Senhor das Armas", em plena época da chamada "guerra ao terror", o diretor mostrou um pouco da sordidez e da ganância que permeia a indústria bélica, dando nomes aos bois com muito cinismo e ironia.

O que diferencia "O Preço do Amanhã" desses outros filmes é que ele não se limita apenas à mensagem em si, mas cria todo um universo onde ela é passada, e, de forma simbólica, dialoga com a nossa realidade. (ATENÇÃO! SEGUEM ALGUNS SPOILERS!!) No enredo, a população, ao completar 25 anos, só tem mais um ano de vida, e um relógio orgânico localizado em seus braços desde o nascimento, começa uma espécie de contagem regressiva. A partir daí, todos precisam barganhar o tempo para poderem viver um pouco mais. Num ambiente assim, o inevitável acontece: os ricos sempre têm mais tempo do que os pobres; estes, às vezes, com apenas algumas horas de existência.




Nesse mundo, Will Salas é um jovem que completou 25 anos recentemente e que precisa trabalhar junto com a mãe para se sustentarem. Ambos vivem no gueto, a parte mais pobre da cidade, onde o crime e a tensão são constantes por conta do comércio ilegal de tempo. Após receber de "presente" um século de vida de um desconhecido, Salas, ironicamente, perde sua mãe, morta devido aos sucessivos aumentos de preços. No gueto, os custos de vida são sempre altos para que os pobres morram mais rápido.

Nisso, ele parte para a área nobre da cidade, New Greenwich, a fim de desmantelar um pouco desse sistema. Só que os "guardiões do tempo", policiais encarregados de deixarem esse mesmo sistema em ordem, desconfiam das intenções de Salas e partem em seu encalço. Quando está prestes a ser preso, foge com Sylvia, filha de um magnata, que, a princípio, mostra-se arredia, mas depois passa a ser uma importante aliada.




Falando assim, fica parecendo que a estória tem referências e acontecimentos em demasia, tornado a produção um tanto complicada. Porém, não é assim. O diretor impõe um ritmo narrativo em que tudo isso (e muito mais) é explorado no momento certo. Ideologicamente, o filme é repleto de boas críticas à nossa sociedade: da desigualdade de classes até a falta de ética das instituições financeiras, passando por questionamentos mais profundos, como o sentido de se viver eternamente com a morte de muitos.

Só que se trata também de uma produção de ação e aventura, e nisso, "O Preço do Amanhã" não decepciona. Mesmo sem arrojados efeitos especiais, o longa empolga do começo ao fim, com cenas muito bem filmadas (um dia, talvez Michael Bay aprenda...). Outro ponto forte são as atuações. Cillian Murphy está muito seguro no papel do guardião do tempo Raymond Leon. Mas quem rouba as cenas são os protagonistas, mesmo. Justin Timberlake dá a Will Salas a motivação e o cinismo necessários ao personagem, e Amanda Seyfried nos oferece mais do que um mero par romântico, mostrando anseios e ações tão justas quanto Salas.




"O Preço do Amanhã" é um filme pouco corriqueiro na Hollywood atual. Não se limita a requentar fórmulas antigas, nem apela para a zona de conforto de se adaptar um livro ou uma história em quadrinhos. Ao contrário: entendendo bem a proposta original da arte no cinema, essa produção cria uma temática e todo um universo próprios, que fazem referência à realidade em volta do espectador, respeitando sua inteligência. E, sim, o roteiro tem lá suas falhas, como alguns furos e o passado não explicado do pai de Salas, mas isso é muito pouco para atrapalhar o resultado.

Herdeiro direto de outro filme recente ("A Origem", de Nolan), "O Preço do Amanhã" demonstra como se faz cinemão para as massas, e, ainda assim, passar uma mensagem relevante, embalada num universo criativo e elaborado. São exceções assim que precisam ser produzidas com mais frequência.




NOTA: 9/10.

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