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Mostrando postagens de Dezembro, 2014
POR UM 2015 MAIS HUMANISTA




2014 foi difícil. Uma ano de revelações, de tomadas de postura, onde mostramos que tipo de povo nós somos. Carregado, este ano que termina foi, infelizmente, de muito ódio, rancor, brigas, intolerâncias.

Já começou com o caso daquele menino que foi amarrado ao poste no RJ. Uma mulher se indigna com isso, tira fotos e protesta nas redes sociais. Só faltou ser morta, pois, de ameaças, sua vida ficou lotada. Afinal, bandido bom é bandido morto, e quem tem pena, que leve pra casa! Até jornalistas se mostraram a favor do linchamento, ou pelo menos, tentando justificá-lo. Esses mesmos se calaram quando uma dona de casa foi morta por ter sido confundida com uma sequestradora de crianças. Remorso, não foi. Talvez o silêncio tenha sido estratégico.


A barbárie como válvula de escape.


Chega a famigerada Copa do Mundo, e os nossos problemas acabaram. Mesmo com as vaias à presidente Dilma, todos se mostraram satisfeitos. Não importa que muitos operários tenham morrido na …
DICA DE FILME

"A Idade da Terra" (1980)
DIREÇÃO: Glauber Rocha.


Uma imagem vale mais do que mil palavras. Uma palavra vale mais do que mil discursos. Um discurso vale mais do que mil ideias. E, com uma ideia na cabeça, o cineasta Glauber Rocha nos inquietou e perturbou com seus filmes, sempre de maneira pouco ortodoxa. Claro que isso cobrou seu preço, pois, ainda hoje, poucos conseguiram entender sua mensagem, mesmo que ela esteja nítida em "Terra em Transe" ou "Deus e o Diabo na Terra do Sol".

O que dizer, então, de algo repleto de simbolismos e desafios como "A Idade da Terra"?

Este foi o último que ele fez, e, talvez por antever que seria sua derradeira contribuição ao cinema, parece que Glauber decidiu se jogar de cabeça no turbilhão que era o seu espírito. A busca por algo mais puro, ou até certo ponto, primitivo, mostra-se logo na primeira cena, onde vemos um pôr-do-sol, num desolado horizonte. Ao fundo, sons da natureza e de ritmos indígena…
DICA DE FILME

"Vá e Veja" (1985)
DIREÇÃO: Elem Klimov.





Podemos dizer que a inocência é o tema central do filme "Vá e Veja". Mas, não aquela inocência engessada, e sim aquela que precisa se adaptar ao meio, aquela que está em constante transformação para não perder a essência, ou, pelo menos, para manter a sanidade intacta diante da barbárie.

As sequências inicias dessa produção, por exemplo, mostram crianças, em plena guerra brincando como se fossem soldados. Agem como oficiais adultos, sendo violentos e soltando palavrões aos montes. Mesmo assim, vemos o tempo todo que se tratam ainda de crianças.



Outra cena que ilustra muito bem isso é quando um dos garotos mostrados no início (e que será o protagonista ao longo do filme) chega em casa e fala para sua mãe que vai se alistar. Esta, em desespero, implora para que ele não vá, enquanto ele tenta acalmar as pequenas irmãs fingindo que tudo não passa de uma brincadeira da mãe.

Somos transportados para a Bielorrússia de 1…
DEBATE SOCIAL

FEMINISMO TABU




Conversar sobre feminismo está ficando cada vez mais difícil (se é que algum dia, chegou a ser fácil). O problema é que a má vontade reina absoluta a respeito de certos temas, e como o individualismo é pregado que nem uma religião, ninguém se coloca no lugar do outro (nesse caso, das mulheres que pedem direitos igualitários). Até mesmo muitas mulheres se colocam contra o feminismo, baseadas no receio de serem hostilizadas em seus meios sociais por causa dessas ideias.

Primeiro, é bom falar: somos hipócritas, o que dificulta ainda mais as coisas. Muitos (homens, em sua maioria) criticam o feminismo sob o pretexto de que suas integrantes se focam em bobagens, como o direito de não depilarem axilas. Pode até ser besteira, em linhas gerais, reconheço, mas o que dizer da revolta de uma grande parcela de homens que se sentiram agredidos pelo comercial de TV da Gillete, que colocava o padrão de beleza masculina como alguém que se depila? Ora, não seria essa uma bo…
DICA DE LIVRO

"O Remorso de Baltazar Serapião" (2006)
AUTOR: Valter Hugo Mãe.




A ignorância cotidiana. A estupidez. A violência contra a mulher. O embrutecimento. Nossa realidade é o palco de inúmeras desgraças e uma medíocre humanidade que se recusa a se importar com isso. Mas, existem os inquietos, os perturbados, os inconformados.

O escritor Valter Hugo Mãe pode, muito bem, encaixar-se nesse perfil, mesmo que, sob certa ótica a literatura que iremos encontrar em "Baltazar Serapião" seja chocante, muito chocante. De início, o que mais salta aos olhos é a forma como a figura feminina é tratada.

Num ambiente onde superstições religiosas e toda a sorte de ignorância reinam, as mulheres são colocadas como figuras estúpidas, que precisam ficar caladas para não contaminarem os homens com seus pensamentos. E, estes, caso se achem enganados por elas, têm total liberdade de aplicarem as mais horríveis violências contra elas.

À primeira vista, apelativo, sim. Mas, a realidade…
DICA DE FILME

"O GOSTO DA CEREJA" (1997)
DIREÇÃO: Abbas Kiarostami





Suicídio. Tema complexo e pouco compreendido. Nossa cultura (principalmente, por motivos religiosos) ainda o vê como um grande tabu. E, é essa resistência que o protagonista de "O Gosto da Cereja" vai encontrar pelo caminho.

Perambulando de carro no meio de um povoado onde a pobreza é latente, e onde a dignidade humana precisa ser reafirmada diariamente, ele procura alguém para fazer um trabalho aparentemente simples: jogar terra em seu corpo quando ele tiver se matado.



Obviamente, todos se recusam. No entanto, ele continua a procurar alguém que o compreenda. Como ele mesmo diz: "Você pode compreender a minha dor, mas nunca poderá senti-la. Peço apenas que aceite a minha decisão, pois se é pecado tirar a própria vida, maior pecado ainda é fazer as pessoas que você ama sofrerem por causa do seu problema."

A simbologia das imagens pula da tela de maneira forte. Kiarostami usa várias metáforas,…
DICA DE DISCO

"Bloco do Eu Sozinho" (2001)
Artista: Los Hermanos.




O "Angel Dust" dos Los Hermanos. Ou seria o "Sgt. Peppers" dos Los Hermanos? Não importa como queiram tachá-lo. Quebra de paradigmas; teste aos fãs. Sim, meus caros, atitude. Mas, não aquela falsa, da moda, que faz os jovens atuais pedirem uma ditadura militar, por exemplo.

Ousadia. Talvez o último momento da música brasileira em que essa palavra fez sentido. A briga com a gravadora da banda à época (a Abril Music) e a insistência do grupo em lançar o material, mesmo com algumas modificações, não tem paralelo recente na indústria fonográfica daqui.




Teria ido o Los Hermanos longe demais? Provavelmente. E, que bom! De que se valeria a grande arte sem a transposição desses limites? Calculado ou não, o risco em se lançar "O Bloco do Eu Sozinho" foi grande. Resultado imediato: uma legião (enorme) de fãs comprou a ideia da banda, e passou a admirá-los mais.

O negócio é o seguinte: não tem…
DICA DE FILME

"INTOCÁVEIS" (2012)





Há filmes que, notadamente, querem dar um passo maior que as pernas. Pretendem falar de assuntos dos mais complexos, mas como muitos de seus realizadores parecem só conhecer leitura de auto-ajuda, o resultado sai bastante pífio. Foi essa Síndrome Pseudo-intelectual que acometeu alguns filmes norte-americanos recentes, como "Prometheus", "Shame" e "Cosmópolis".

No entanto, existem outras produções que partem de uma premissa simples, e se desenrolam em assuntos dos mais pertinentes. Recentemente, do Irã veio o ótimo "A Separação", que partia de uma simples dissolução de um casamento para tocar em assuntos muito abrangentes. "Intocáveis", felizmente, joga nesse time.



A história realmente pode parecer básica, vejam só: Philippe (François Cluzet) é um aristocrata rico que, após sofrer um grave acidente, fica tetraplégico. Precisando de um assistente, ele decide contratar Driss (Omar Sy), um jovem …