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DICA DE DISCO

"Metá Metá" (2011)
Artista: Metá Metá.


Juçara Marçal virou quase uma unanimidade por conta de seu primeiro disco solo, "Encarnado", lançado ano passado. Com uma fórmula que unia interpretação passional, com uma sonoridade minimalista, mas muito rica, esse álbum, rapidamente, ganhou status de clássico moderno. Por isso, é tão válido buscar o que a cantora fazia antes. Daí, o ouvinte poderá se reconfortar com um verdadeiro achado, chamado Metá Metá, uma banda muito interessante.

Basicamente, o grupo é um trio (Juçara Marçal nos vocais, mais os músicos Kiko Dinucci e Thiago França). Ou seja, uma parte do embrião do disco "Encarnado". Por isso, os ouvidos mais habituados à sonoridade desse trabalho, não vão encontrar problemas em apreciarem o primeiro lançamento da Metá Metá, feito em 2011. Ao contrário, podem, inclusive, fazer um curioso jogo, tentando encontrar similaridades em ambos os trabalhos.


Logo de início, "Metá Metá", começa com um cover de Siba e a Fuloresta do Samba, "Vale do Jucá". Lembremos que "Encarnado" tem "A Velha da Capa Preta", também de Siba. Com uma levada de samba de raiz, "Vale do Jucá" ficou em deleite. Gostosa de se ouvir, rivaliza fácil com a versão original. Ou seja, Juçara Marçal & cia não acertaram o alvo no escuro em 2014. O talento deles já era perceptível bem antes.

"Umbigada", do compositor Lincoln Antônio, possui um arranjo muito bonito regado à flauta. Ressalta, inclusive, uma das principais propostas do grupo, que é utilizar sons econômicos, com bastante influência da cultura africana. Chegamos à canção "Papel Sulfite", escrita por Jonathan Silva. O sussurro de Juçara vai fazendo a mesa para algo simples, mas bem cuidado. A partir daqui, o grupo já criou identidade.


O começo narrado de "Trovoa", de Maurício Pereira, mostra que estamos diante de uma cantora que sabe interpretar. Não precisar gritar, nem cantar "pra dentro". Sua voz natural já preenche todo o ambiente."Samuel", que fecha a primeira metade do disco, com uma interpretação vocal conjunta, que muito me lembrou os bons tempos do Clube da Esquina. E, uma banda atual remeter a um clássico desses, realmente, não é pouco.


O disco continua com "Vias de Fato", e aqui, também temos uma interpretação múltipla, numa música com alma de samba, estilo, digamos, um Paulinho da Viola, mas com incursões de peso, num quase rock'n roll. É, o pessoal do Metá Metá sabe onde pisa, e podemos dizer que a busca pela qualidade é o diferencial deles. Não são desleixados em entregarem qualquer coisa para o ouvinte, e sim, algo verdadeiramente trabalhado.


E, por fim, as quatro últimas músicas do disco "Oranian", "Obá Iná", "Obatalá" e "Ora Iê Iê O" são ótimas e evidenciam as influências afro do grupo, chegando até a lembrar algo do afrobeat, do Fela Kuti. Arranjos muito bem elaborados de instrumentos de sopro, percussão forte e, claro, Juçara cantando e colocando muitas seguidoras atuais de Elis Regina no chinelo. E, o disco se encerra não só com a sensação de dever cumprido, mas com a promessa de que viria mais coisa boa no futuro.


Então, chegamos em "Encarnado", o ápice da parceria Juçara Marçal-Kiko Dinucci. Já, o primeiro do Metá Metá não é tão visceral, mesmo assim, está anos-luz à frente do que é feito por aí sob a alcunha de "música brasileira de raiz". Basta abrir bem os ouvidos, como diria o saudoso Chico Science.

NOTA: 8,5/10.

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