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DICA DE FILME

"A História da Eternidade" (2014)
Direção: Camilo Cavalcante.


Algumas obras no cinema são de difícil classificação, e até de entendimento. Recentemente, a sétima arte nos deu "A árvore da Vida" e "Holy Motors", dois filmes que precisam ser assistidos com a atenção necessária para pegar cada uma de suas sutilezas. Só que há outras produções que tentam enveredar por esse caminho, de entendimentos mais subjetivos e implícitos, mas que não consegue, no fim das contas. "A História da Eternidade" exemplifica isso, apesar de ser um tanto interessante.

O problema aqui talvez resida mesmo na direção. Mais particularmente o que atrapalha é o excesso de zelo técnico. Pode parecer incrível, mas é isso mesmo. São imagens muito trabalhadas, milimetricamente pensadas, e realizadas com rigor. Lindas, admitamos. Porém, vazias de propósito na maioria das vezes. É muita contemplação, é poca humanidade, pouco sentimento, pouca pulsação. Parecem pinturas sem vida, apenas.




O que salva "A História da Eternidade" são os atores A entrega ao personagem de cada um deles é o que luz ao filme, e acaba criando um contraste inusitado. Parece, quase o tempo todo, que eles estão deslocados nas cenas, como se, independente do roteiro, estivessem em outro plano, onde as cenas nem pano de fundo são. Inusitado e perceptível, isso gera certo "travamento" nas sequências, que poderiam ter maior fluidez, mas a estrutura na deixa.

Tais recursos técnicos em excesso parecem querer dizer algo o tempo todo. Até identificamos que se trata do desejo pelo amor, pela liberdade e pela esperança. Porém, a forma, geralmente, não mostra naturalidade. Mesmo assim, alguns momentos soam espontâneos, e elevam um pouco o filme, como quando a personagem Alfonsina molha o rosto com água salgada pelo desejo de conhecer o mar, ou quando um sanfoneiro cego declara sua paixão por Querência.



No entanto, são situações espaças, raras. Somente depois de mais de uma hora de projeção, o filme ganha força como um todo, e a direção deixa a estória fluir. Não à toa, é o momento da produção com maiores conflitos, onde o ápice dos sentimentos guardados de cada um explode em busca de algo. É aí, e somente aí, que "A História da Eternidade" pareceu ser um conjunto completo, não dependendo mais dos atores, nem de um ou outro momento isolado.

Ser poético e simbólico no cinema precisa mais do que estética. A sorte de Camilo Cavalcante (que também é responsável pelo roteiro) é que ele contou com o talento de gente como Irandhir Santos, Marcella Cartaxo, entre outros, que se sobressaem mais do que qualquer imagem. Mas, um elogio tem de ser feito: a trilha sonora é ótima. Cada música combina perfeitamente com cada situação, e é outro recurso (além das atuações) que ajuda o espectador a entender o que se quer passar aqui.



Ao final, é a vida querendo sair, ser liberta, ganhar asas, ou nadar. É ir de encontro às tradições que oprimem. É buscar a felicidade, mesmo como uma maneira de redenção. E, o amor proibido, aquele que nos desafia a irmos além. Só que, se é pra falar disso (o que é, de fato, importante), outros filmes brasileiros se saíram melhor ao combater a rigidez dos costumes, como "Abril Despedaçado" ou "Lavoura Arcaica". Mesmo que estes sejam baseados em livros ("A História da Eternidade" tem roteiro original), seus realizadores souberam equilibrar melhor as coisas.

Apesar dos pormenores, trata-se de uma produção interessante, bem cuidada, que merece ser vista. Só que mais naturalidade ao contar a estória do cotidiano dos personagens, e um domínio melhor das sutilezas, teriam transformado o resultado final em algo fascinante, a gerar reflexões, e a desconcertar o espectador. Bonito, sim, mas, em muitos aspectos, não mais que isso.

NOTA: 7/10.

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