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DICA DE FILME

"O Abutre" (2014)
Direção: Dan Gilroy.


Este filme pode ser colocado como a estória de um personagem amoral convivendo num sistema imoral. À primeira vista, essa descrição pode soar estranha, mas, acreditem, ela faz muito sentido no contexto da produção. Um protagonista ser uma espécie de anti-herói, com um caráter totalmente fora dos padrões, não chega a ser novidade. Mas, aqui, a ironia e o sarcasmo fazem do resultado algo fascinante.

Mas, provavelmente, vocês não terão simpatia por Louis Bloom. E, é aí que reside a grande qualidade de "O Abutre". Não há a preocupação em julgar as ações dele; isso fica a cargo do espectador. Este, por sua vez, será um voyeur da desgraça alheia, onde Bloom será apenas uma peça. Logo de cara, o personagem agride um policial, para depois revender material roubado. Sua conversa é envolvente e tem carisma, só que não somos obrigados a concordar com ele.




Eis que, devido à sua lógica muito, digamos, "peculiar", ele vislumbra uma nova forma de ganhar dinheiro: filmando cenas de crimes e acidentes e vendendo à emissoras de TV. Quando pensamos que que Bloom é um canalha, surgem algumas pessoas do ramo das comunicações, e vemos que ele é apenas a ponta do iceberg. A miséria, a desgraça, a violência, a morte atraem audiência. É isso o que o público quer, e o que os meios de comunicação oferecem. Se tiver sangue, ótimo!

É então que nosso "herói sem caráter" conhece Nina Romina, que se mostra tão ambiciosa quanto ele, mas sem apresentar o mesmo "talento" para lidar com situações difíceis da forma mais prática e absurda possível. Chantagens ocorrerão. Companheiros de trabalho de Romina ainda tentam, em vão, conversar sobre a ética no que fazem, mas ninguém, a bem da verdade, quer dar o primeiro passo. Afinal, a audiência está cada vez mais alta, e é isso o que importa.



Nesse meio tempo, Bloom contrata Rick como seu ajudante, e até pensamos que algum equilíbrio em termos de moralidade surgirá. Porém, mesmo questionando as ações de seu "chefe", Rick não desiste do emprego. Em certos momentos, mais preocupado com dinheiro, parece ter tantas ambições quantos os demais que vão surgindo ao longo da estória. Só que é, justamente ele quem vai dar o "ponto crítico" para que Bloom ultrapasse seus limites.

O que talvez alguns se incomodem com esse filme é que o foco tenha ficado demais no personagem principal. As críticas a uma mídia carniceira e mais preocupada com índices de audiência ficaram em segundo plano. Porém, e mesmo assim, elas aparecem, e são nítidas. Acontece que o próprio título da produção já dá a entender que é a estória de Louis Bloom, tendo como pano de fundo todo um sistema falido de moralidade e ética.



Tendo isso em mente, ficamos com uma narrativa muito bem contada e elaborada, que, por vezes, choca pelo nível de frieza e falta de escrúpulos de algumas pessoas. Mas, olhando atentamente, é justamente o que encontramos nos famigerados programas policiais, cujo Brasil é um dos principais representantes desse tipo de programa. Nós, aqui, também não consumimos a miséria dos outros, sem nos importarmos com a dor alheia? "O Abutre" consegue fazer refletir isso.

No entanto, nada disso seria possível se o longa não tivesse um ator que se entregou ao seu personagem, literalmente. A paixão e a fúria com que Jake Gillenhaal encarna Louis Bloom é impressionante. Demonstra uma tensão interior que parece que vai explodir a qualquer momento, e ainda tem aquele ar cínico, com toda uma conversa sinuosa. E, Gillenhaal ainda passa no desafio de não dar carisma a um personagem desses. Lembrando que o ator perdeu 10 kg para encarnar o papel.



Rene Russo, como Romina, e Riz Ahmed, como Rick, também entregam atuações muito boas, servindo, em certa escala, como dois pólos opostos na vida de Bloom. Somente Bill Paxton, como Joe Loder, rival do protagonista, que foi mal aproveitado, Só aparece para provocar o adversário, e depois de uma determinada cena, ele some da trama. O que é uma pena, pois um confronto maior, de igual para igual, entre os dois teria servido para melhores debates a respeito dos limites nesse tipo de profissão.

Por fim, o roteiro, bem amarrado, unido a uma direção com ritmo e vigor, fazem as quase duas horas do filme passarem bem rápido. E, é esse conjunto que torna tudo muito coeso e gratificante. Sobre as críticas à mídia, "O Abutre" não se aprofunda tanto, e nem se propõe a isso, pra dizer a verdade. Nesse aspecto, temos outros filmes muito bons, como "Rede de Intrigas" e "O Quarto Poder". Mesmo assim, ele é uma experiência bom contada e até inteligente sobre como tratamos, de uma maneira geral, a vida dessas pessoas que vemos nos noticiários todos os dias.


Só por levantar esse diálogo em tempos assim, ele já vale, no mínimo, uma conferida despretensiosa. Ao final, concordaremos que se trata de uma ótima produção, no final das contas.

NOTA: 8,5/10.

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