Pular para o conteúdo principal
Dica de Filme

"Cobra Verde" (1987)
Direção: Werner Herzog.


Falar sobre a relação tempestuosa de Werzog e Kinski é chover no molhado. E, que essa relação gerou trabalhos brilhantes, também é de conhecimento geral. Mas, na época de "Cobra Verde", não se imaginava que essa seria a última parceria entre o diretor e o ator. Quatro anos mais tarde, Kinski morria, deixando um legado de excelentes atuações, a maioria sob o comando de Herzog. Este filme, portanto, serve como um belíssimo testamento dele.

Atributos não faltam para classificar "Cobra Verde" como um grande trabalho. Primeiro, o cineasta, conhecido por complicar o andamento de seus filmes devido às difíceis locações que escolhia, dessa vez, escolheu três lugares distintos: Brasil, Colômbia e Ghana, no litoral africano. O resultado dessa mescla de paisagens é soberbo. O ambiente vira quase um personagem à parte na trama, expondo muito dos sentimento do protagonista.




E, falando em protagonista, como em outras ocasiões, Kinski faz, aqui, um personagem, à primeira vista, detestável, mas, que entendemos que foi brutalizado pelo ambiente em que vive. Cobra Verde é, sim, um fora da lei, gosta de se deitar com várias mulheres e é ambicioso. Mas, não é tão diferente quanto os coronéis que escravizam negros, nem os insanos imperadores africanos que também escravizam o seu povo. Cobra Verde, no meio destes, vira quase um herói.

A saga do personagem é longa e tortuosa. Da fama de bandido, passando por capataz em fazendas de cana de açúcar, até ser levado para a África para morrer, passamos a ter uma empatia estranha por Cobra Verde. Vibramos quando ele enxota um clérigo da Igreja que está "abençoando" escravos, e quando ele comanda um exército de amazonas contra um tirano num país africano. Automaticamente, também ficamos tristes com a sua angústia e o seu desespero quando ele se dá conta do vazio da vida.




Mas, mesmo o foco do filme sendo Cobra Verde, Herzog parece querer dizer mais do que simplesmente mostrar a vida desajustada do protagonista. Mensagens no início e no término da produção sintetizam tudo: "Um dia, os escravos arrebentam as correntes de seus senhores, e criam asas". A cena final (um grupo de meninas de uma etnia africana dançando alegremente) diz muito a respeito disso. É a vida pulsando, a necessidade da liberdade, mostrando que aquele povo também é humano, têm cultura, vitalidade e energia. Metáforas poderosas.

É preciso dizer que Kinski está um monstro em seu papel? Bem, é preciso, sim, porque não é todo o dia que nos deparamos com tamanha força da natureza em tela. O ator dá o sangue em cenas cruciais, como o ataque à aldeia do tirano imperador, e na sua última sequência, uma tentativa desesperada de sair dali e voltar pra casa. Essa cena, inclusive, que também é uma ótima analogia do esgotamento nervoso do ator, que, a olhos vistos, "sofreu" nas mãos de Herzog.




Um filme forte, como vários significados. É, igualmente, uma fantástica despedida dessa parceria ator/diretor, que já nos brindou com os maravilhosos "Aguirre" e "Nosferatu", por exemplo. Além do mais,"Cobra Verde" é um filme tão denso e brutal que parece ter "matado" Kinski por dentro, devido à sua intensa sensibilidade. De fato, ele demonstra, em muitos momentos, que não aguentou estar em contato com realidades tão duras.

Kinski se despede em grande estilo.


Nota: 9/10.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lista Especial Final de Ano

20 MELHORES DISCOS DE 2017


Este ano, em termos de música, foi um pouco melhor do que 2016, indiscutivelmente. Novos artistas mostraram trabalhos maravilhosos (Triinca, Royal Blood, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci), ao mesmo tempo que alguns da velha guarda voltaram com tudo, em discos que parecem de início de carreira (Accept, Living Colour). 
Além disso, tevemos obras das mais variadas teméticas, desde a banda instrumental Macaco Bong fazendo uma reeleitura pra lá de insana do clássico "Nevermind", do Nirvana, até artistas como Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis, que, com "Sambas do Absurdo", emularam à perfeição a obra do filósofo Albert Camus. 
O resultado desta excelente miscelânea sonora está aqui, numa lista com os 20 melhores discos lançados neste ano que passou, cada um com cheiro e gostos diferentes, mas, que, de forma alguma, são indigestos.
Bon appétit. 🍴

20º
"In Spades"
The Afghan Whigs


19º
"The Rise of Chaos…
Dica de Filme

"As Fitas de Poughkeepsie" (2007)
Direção: John Erick Dowdle.


A maldade humana já gerou filmes verdadeiramente perturbadores, mas, que, muitas vezes, são feitos de forma apelativa, sempre expondo mais violência, como numa forma de fetiche, do que propondo alguma forma de reflexão. Exemplos desse desserviço cinematográfico são muitos, e não vou citá-los aqui, porque só servem mesmo para alimentar mentes doentias. Porém, existem aqueles filmes que conseguem fugir dessa regra, e conseguem propor algo válido, ao mesmo tempo que assustam bastante. É o caso deste "As Fitas de Poughkeepsie".
Primeiramente, é bom que se diga que ele se trata de um falso documentário, usando a (hoje batida) técnica de found-footage, que consiste em apresentar filmagens de maneira amadora, aumentado o tom realístico da obra. O resultado, pelo visto, deu certo. Quando "As Fitas de Poughkeepsie" foi exibido pela primeira vez no conceituado Festival de Trapeze, em Nova Ior…
Dica de Disco

"Shade"
2017
Artista: Living Colour


BANDA CLÁSSICA DOS ANOS 80 CONTINUA NA ATIVA, E ACABA DE LANÇAR UM DISCAÇO DE ROCK QUE VALE A PENA SER OUVIDO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO
O Living Colour foi um dos melhores grupos de rock surgidos nos anos 80, e que continuaram a ter relativo sucesso no início da década de 90. Entre idas e vindas, a banda já não lançava material inédito desde 2009, com o bom "The Chair in the Doorway". Eis que, em 2017, surge "Shade", 6º álbum de estúdio deles, e que comprova que o som do Living Colour não se tornou nem um pouco datado, visto que aqui vamos encontrar todos os elementos que tornaram a banda mundialmente conhecida, e que, ao mesmo tempo, ainda soa moderno e contagiante.



"Primos" de som do Red Hot Chilli Peppers e do Faith no More, o Living Colour, ao contrário destes, continua, ainda nos dias de hoje, com uma regularidade muito bacana em sua música, mesmo depois de mais de 30 anos de carreira. Isso se deve a…