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Dica de Filme

"Um Homem Entre Gigantes" (2015)
Direção: Peter Landesman.


Os títulos que as distribuidoras brasileiras dão a filmes estrangeiros deveriam virar estudo acadêmico. Parece que sempre querem carregar mais ainda na mensagem que o filme, por si, já passa, fazendo da tradução algo, no mínimo, piegas. Por exemplo, muito melhor teria sido se tivessem deixado o título original desse aqui ("Concussion") intacto. Isso porque concussão não só explica, literalmente, um dos pontos da trama, como também representa, metaforicamente muito bem, um duelo sem proporções entre uma pessoa comum e uma grande conglomerado de entretenimento. Mas, vamos por partes.

Assim como no Brasil acontece com o futebol de campo, lá nos EUA o futebol americano é visto quase como uma religião, ao mesmo tempo que é um negócio altamente lucrativo. É quando o neuropatologista Bennett Omalu entra na história. Realizando autópsias nada convencionais, ele descobre algo estranho. Um ex-jogador de futebol americano comete suicídio, mas, aparentemente, não há nada de errado com seu cérebro. Nenhum indício de distúrbios, de problemas neurológicos, nada.





Investigando o caso mais a fundo, o Dr. Omalu descobre que aquele homem que cometeu suicídio sofria de um mal comum entre os que praticam o esporte que ele fazia. Os constantes choques na cabeça podem lesionar gravemente a região, fazendo a pessoa ter alucinações de todo tipo. É claro que essa descoberta não será bem vista pela Liga de Futebol Americano que, com sua influência (até mesmo no FBI) irá tentar anular as pesquisas do Dr. Omalu e desmerecer suas descobertas. Começa, então, um tour de fource de um homem comum enfrentando uma instituição forte demais.

Talvez, um dos principais problemas do filme seja a previsibilidade. Não nos esqueçamos, aqui a história é baseada em fatos reais. Servindo, portanto, como uma cinebiografia, o roteiro toma algumas "liberdades poéticas", deixando alguns momentos, desnecessariamente, melodramáticos. Também há uma certa inclinação ufanista aos EUA, pela ideia que o Dr. Omalu tem da América (ele nasceu na Nigéria). Tudo bem que, depois, de uma forma até ingênua, o personagem descobre que a terra do Tio Sam não é tão correta assim.




Mesmo assim, o filme se sai muito bem naquilo que se propõe: criticar uma cultura que, descobre-se, é nefasta para alguns. São muitos os momentos em que membros da Liga de Futebol tentam justificar a importância dela (doações a entidades filantrópicas, geração de empregas, entretenimento de massas, etc.). Nesse caso, Dr. Omalu deixa bem evidente que não odeia futebol, mas, que quem joga e quem assiste tem o direito de saber dos riscos de um esporte assim. As estratégias sórdidas para "destruírem" o neuropatologista são dignas de uma máfia, e, de fato, são revoltantes.

Muito se falou sobre a atuação de Will Smith. Bem, ele realmente já provou ser um ótimo ator, mas, aqui, ele está um pouco limitado. O personagem é bom, porém, Smith aparenta estar "travado" o tempo, só se soltando em alguns arroubos de histrionismos e tiques nervosos. Em "À Procura da Felicidade", ele se mostrou bem mais à vontade. O restante do elenco está bem, apesar de não ter nenhum que fique em evidência.




Tivesse evitado algumas forçadas dramáticas além da conta, "Um Homem Entre Gigantes" teria mais impacto, sem dúvida. Apesar disso, faz, tranquilamente, o espectador refletir sobre alguns de nossos valores culturais, de entretenimento, e que, por trás de certas "tradições", podem se esconder coisas terríveis. Só por ter alfinetado um cânone como a Liga de Futebol Americano com alguma competência, a produção vale uma assistida.


Nota: 7,5/10.

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