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Dica de Disco

"A Moon Shaped Pool" (2016)
Artista: Radiohead.


O tempo não para. Ok, essa frase há muito já virou clichê, mas, cai como uma luva para o Radiohead. Dito isto, é preciso, portanto, analisar o novo álbum da banda, "A Moon Shaped Pool", o nono de sua carreira, `luz dessa realidade. Continuemos a mar os três primeiros discos do grupo, mas, verdade seja dita: nunca mais teremos a urgência de "Pablo Honey", o carisma de "The Bends", nem o caos de "Ok Computer". Hoje, o Rdaiohead está mais para o Massive Attack, do que para o R.E.M. ou o Nirvana (suas primeiras influências). Isso é bom? Depende do que queremos.

A primeira coisa que me vem à cabeça quando penso em "A Moon Shaped Pool" é como o disco é bonito. Sim, ele tem uma beleza própria, porém, um belo estranho, melancólico, quase sarcástico. Thom Yorke e cia agora parecem saber dosar as experimentações que escutamos nos polêmicos "Kid A" e "Amnesiac". Sim, continuamos presenteados com músicas etéreas, mas, com umas sutilezas de se encher os ouvidos. Esse é o novo Radiohead, gostem ou não. Pra uns, esse novo disco vai parecer chato; pra outros, pode até se mostrar brilhante. Na realidade, ele é sereno, muito sereno.



Começa com uma orquestração frenética, quase robótica, no primeiro single, "Burn the Witch". Ótima faixa pra começar a prender a atenção. Mas, esperem, que tem mais. A seguir, somos acalentados com "Daydreaming", com barulhinhos típicos da banda, e um arranjo deveras elaborado. Alonga-se demais na duração, é verdade, no entanto, não deixa de ser uma música que possui seus predicados. "Decks Dark" transita entre a ótima interpretação de Yorke e a sonoridade sombria de um trip hop à lá Portishead. Até agora, nem sombra das guitarras, e, honestamente, não fazem falta aqui.

Já estamos na quarta faixa, "Desert Island Disk", e, mesmo apresentando apenas um fiapo do que o Radiohead mostra em início de carreira, ainda assim, consegue prender a atenção. Nessa música, uma sonoridade acústica, num clima tântrico, é a porta de entrada para a canção se desenvolver até chegar num estilo que pode até remeter à antiga fase da banda, só que com mais maturidade. "Ful Stop" é dançante, perturbadora e psicodélica do início ao fim. E, ao término, você já se encontra totalmente envolvido nela.

Clipe Oficial de "Burn the Witch":


O Radiohead ainda se dá ao luxo de fazer uma música curta e quase que inteiramente sinfônica, "Glass Eyes", e que, não por acaso, é a mais "comum" e a mais descartável do álbum. Mas, tubo bem, ela passa rápido, e aí temos "Identikit", cuja batida ritmada lembra, acreditem se quiser, um bom reggae. Mas, claro, um reggae com a cara do grupo: minimalista, provocador e inquietante. Ah, e aqui ouvimos vestígios de guitarras, finalmente, só que bem esparsas, e totalmente imersas na sonoridade pulsante da música.

Interessante que a faixa que vem a seguir, "The Numbers", é outra que não faria muita falta aqui. Não que ela seja uma composição ruim, mas, ela talvez seja a que mais se aproxima do Radiohead das antigas, e, justamente por isso, acaba perdendo o senso de novidade, do diferencial que acompanhou o disco até então. Um coro de vozes aqui e um piano acolá dão um "quê" a mais, porém, sabemos que o grupo pode bem oferecer resultados bem melhores. E, por isso, temos direito de exigirmos esse padrão de qualidade.

Clipe Oficial de "Daydreaming":


Qualidade essa que vem com a inusitada e cadenciada "Present Tense", cujos batuques lembram bem alguns afrosambas de Vinícius e Baden Powell, vejam só! Mas, como sempre, a banda apropria-se muito bem de diversas referências para fazer algo próprio. Belo som, gostoso de se ouvir. Já, a penúltima faixa, "Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief", exala tristeza e dramaticidade, desde o seu enigmático título, `letra cheia de significados: "Eles acendem o fogo para se manterem afastados, e tudo o que você tem a dizer é sim". E, tudo se encerra com a calma "True Love Waits", numa espécie de jazz alternativo. Grand finale.

"A Moon Shaped Pool" não é um disco para ser ouvido de forma displicente. É preciso todo um ritual para apreciá-lo plenamente (coisa rara hoje em dia, é verdade, mas, tentemos). Então, pegue suas 11 músicas, esteja relaxado, em silêncio, feche os olhos, e imagine o que quiser ao som deste novo trabalho do Radiohead. Ao menos, você vai refletir. Pode ser até que se sinta alegre. Mas, talvez venha a ficar melancólico. E, de preferência, escute-o mais de uma vez. O que o grupo sempre fez, independente de suas mudanças ao longo dos anos, é isso mesmo: causar essa miscelânea de sensações no ouvinte.

Ame "A Moon Shaped Pool", ou deixe-o. Só não fique indiferente.


Nota: 9/10.

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