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Filme Não Recomendável

"Deus Não Está Morto 2" (2016)
Direção: Harold Cronk.


Pode parecer meio óbvio a não indicação de "Deus Não Está Morto 2" como um bom filme, visto que, neste espaço do blog, já foi dito que a primeira produção era um primor de desonestidade no que diz respeito ao debate fé x ciência, sendo, isso sim, uma propaganda muito mal engendrada do Cristianismo. Mas, vá lá, tenhamos sempre fé na humanidade! Quem sabe, um dia, chegue em nossos cinemas um bom filme gospel que trate de determinada religião de uma forma respeitável e idônea. Mas, a depender de "Deus Não Está Morto 2", esse dia vai demorar (muito). E, olhem que ele até possui alguns elementos que, bem trabalhados, teriam dado um ótimo debate. Porém...

O longa começa mostrando suas novas personagens, a professora Grace Wesley, e uma de suas alunas, Brooke. Grace é retratada como uma pessoa amável, gentil, mas, que, devido à sua fé cristã, não é vista com bons olhos pelos colegas de trabalho, principalmente pela diretora, a sra. Kinney. Já, Brooke apresenta uma história mais interessante a ser trabalhada. Ela acaba de perder o irmão, vítima de uma moléstia grave, e é, ao mesmo tempo, negligenciada pelos pais, que não se mostram nem um pouco preocupados com ela, dando mais importância às suas profissões do que à própria filha.




É nesse momento de depressão que Brooke passa a se interessar cada vez mais pela religião cristã, e ao fazer uma simples pergunta à sua professora Grace, cuja questão, simplesmente, fazia correlação entre os ensinamentos de Cristo e os de Martin Luther King, ambas caem em "desgraça". Todos passam a perseguir a docente, pois afirmam que ela estava doutrinando em sala de aula numa escola laica. A história, obviamente, chega aos ouvidos "diabólicos" da diretora Kinney, que convoca uma reunião com a administração da escola para pedir que Grace se retrate, caso contrário, perderá o emprego e será processada pelos pais de Brooke.

Daí em diante, meus caros, o filme é ladeira abaixo. Para justificar tal exagero de uma professora sendo processada pelo Estado só porque falou o nome de Jesus numa de suas aulas, os personagens passam a ficar cada vez mais estereotipados. Entra em cena o "vilão", o promotor Pete Kane, que, claramente, é pintado com cores asquerosas, de uma pessoa do mal, que está ali para destruir a fé da população (ou melhor, destruir os cristãos em si). Também entra em cena nesse roteiro absurdamente mal-intencionado o advogado de Grace, Tom Endler, que, pelo menos, não se mostra religioso em nenhum momento do filme; apenas está ali para defender sua cliente, e pronto.




O problema é que, em nenhum instante, a história convence, principalmente, porque ela é contada pela ótica de certos cristãos. Uma das mensagens do filme é que a escola precisa ter liberdade para falar de qualquer assunto com seus alunos, inclusive, de religião. No entanto, é bom lembrar que a mesma ala cristã vem lutando há anos para impedir o ensino dos estudos de gênero nas escolas, e, em tempos passados, eram as mesmas pessoas que pediam a prisão de professores que falassem das teorias de Darwin aos seus alunos. De cara, já se enxerga uma hipocrisia pura no discurso do longa.

Contudo, ao contrário do primeiro filme, aqui temos alguns debates até interessantes sobre o tema da religião. E, por incrível que pareça, é o "vilão" quem possui os melhores argumentos, sem sombra de dúvida. Caso fosse um filme mais honesto, o promotor Pete Kane não seria colocado como uma espécie de anti-cristo, e seria um personagem mais fascinante. E, até os argumentos do advogado de defesa fazem sentido. Porém, tudo vem abaixo mesmo numa cena que começa até boa, de um estudioso em escritas forenses sobre a veracidade do que está na Bíblia. Só que esse estudioso termina sua confissão no tribunal dizendo que antes de estudar mais a fundo a Bíblia, ele era ateu, e que depois virou cristão. Assim, fica difícil!




Isso sem contar outra cena muito vergonhosa, onde manifestantes de ambos os lados estão do lado de fora do tribunal onde Grace está sendo julgada. Só que os que são a favor da professora, são retratados com cores alegres, vibrantes. Já, os que são do contra, são mostrados como mal-encarados, feios, sempre gritando, e com uma raiva latente. E, é essa polarização absurda, unida à argumentos que começam bons, mas que terminam de maneira simplista apenas para servirem de propaganda cristã, que mata, literalmente, o filme.

Mas, e como cinema? Bem, é justo dizer que a direção de Harold Cronk é enxuta e econômica, fazendo o filme passar bem rápido as suas mais de duas horas de duração. As atuações também se mostram melhores que as do primeiro longa, com destaque para Ray Wise (que faz Pete Kane) e Jesse Metcalfe (que interpreta o advogado Tom Endler). Ambos estão, a seu modo, carismáticos, e rendem boas cenas quando estão juntos. E, só. De resto, como cinema, o filme é apenas passável.


Sim, seria evidente que "Deus Não Está Morto 2" fosse apenas e tão somente uma propaganda mal-feita e mal-intencionada de religião cristã. Mas, poderia, ao menos, terem tido um pouco de bom senso. Apenas não retratando os cristãos como puros e honestos o tempo todo, e os não-cristãos como maus e perversos o tempo todo, já seria, pra começo de conversa, um avanço. Mas, parece que nem Cristo salva a falta de escrúpulos dos realizadores desse tipo de produção. Oremos.


Nota: 3/10.

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