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Dica de Filme

"Invocação do Mal 2" (2016)
Direção: James Wan.


Medo. Muito medo. Mas, não só ele. Um pavor genuíno, misturado a questões mais humanas, mais tristes. O diretor James Wan conseguiu algo que parecia impossível: superou o primeiro "Invocação do Mal", e, de quebra, trouxe todos esses elementos para a continuação desse filme. Não à toa, o cineasta está sendo tão badalado. Afinal, fazer filmes de terror hoje em dia é chover no molhado; você sabe, exatamente, o que vai acontecer, com sustos fáceis, personagens mais rasos do que um pires, e muito barulho por nada. 

James Was sabe a artimanha de como prender a plateia, e conseguir driblar as armadilhas do gênero terror: simplesmente, ele humaniza seus protagonistas. As pessoas não estão ali para sofrerem, apenas. Elas têm uma vida, ideias, pensam, refletem. Enfim, o que temos em "Invocação do Mal 2" é gente de verdade, crível, o que dá mais envolvimento na trama, deixando tudo mais assustador e dolorido. Afinal, quando alguém que gostamos sofre, sofremos junto, e é essa empatia com personagens cativantes que falta, e muito, nas produções de terror em geral.

Como não gostar do casal Lorraine e Ed Warren? Longe de serem perfeitos, mas, são gente de bom caráter, com sentimentos nobres, e que espelham um sentimento muito profundo de altruísmo. Não há como negar: torcemos por eles logo nos primeiros segundos de filme. E, não é que isso seja um maniqueísmo barato do roteiro, é que a naturalidade com que o relacionamento deles é tratado mostra um cuidado especial em não mostrar nada forçado. São apenas um casal que se gosta muito, e isso já basta.




A família aterrorizada pela nova entidade que os Warren terão que combater também são muito bem construídos. Peggy e seus 4 filhos moram sozinhos numa casa, e vivem como podem, apesar das dificuldades financeiras. Ela, separada do marido, tem um relacionamento amigável com a vizinhança, e mesmo cansada e, às vezes, impaciente com os filhos, ela os ama. O terror mesmo começa quando estranhos acontecimentos acometem a casa, tendo como alvo principal Janet, uma das filhas de Peggy. A partir daí, o casal Warren é designado para investigar o caso e ajudar a família, de alguma maneira.

O interessante no roteiro é que, até a metade do filme, os Warren não se encontram com Peggy e seus filhos. Os acontecimentos de ambos os núcleos vão acontecendo em paralelo na trama. De um lado, a dupla de paranormais começa a se mostrar relutante com o seu ofício, às vezes, sendo ridicularizados e confrontados na mídia por gente que está ali só para agredí-los. Já, o horror que acomete a família de Peggy vai num crescendo insuportável, o que, de certa forma, acaba aproximando todos ainda mais, principalmente, Janet e sua mãe.

Outro ponto a favor do filme é que os personagens não são burros, como na maioria dos filmes de terror. Quando a entidade se mostra pela primeira vez a Peggy, a primeira atitude dela é procurar a ajuda dos vizinhos, ao invés de ficar na casa, tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. O bom é que não são atitudes isoladas. A todo momento, não há ninguém que faça algo ilógico ou sem nexo na história, o que torna a trama ainda mais prazerosa de assistir. 




E, claro, há aquilo que talvez seja o lado mais positivo do roteiro: nós nos importamos de verdade com os personagens. Ninguém está aqui como mera marionete de forças sobrenaturais. Na verdade, há momentos em que você sente mais tristeza e angústia do que medo propriamente dito, dada a empatia que é construída para cada um que vemos na projeção. Não estranhem se, por vezes, vocês sentirem mais raiva dos espíritos do que temor. Por sinal, um temor que é muito bem elaborado por James Wan, que, mesmo com mais efeitos especiais do que o primeiro filme, consegue realizar um clima verdadeiramente apavorante.

Ah, e ainda temos o bom uso da trilha sonora, que vai de The Clash até Bee Gees, tudo muito bem entrosado com cada cena (a sequência cujo pano de fundo "I Started a Joke" é de cortar o coração). E, por fim, temos os atores, que cumprem muito bem o seu papel, principalmente, Vera Farmiga e Patrick Wilson, parecendo que nasceram para interpretarem o casal Warren. A química de ambos é ótima, e seus personagens já podem ser considerados como parte da cultura pop, sem dúvida.





Há pouquíssima coisa a se criticar no filme. Aquela parte em que repórteres entrevistam pessoas que tiveram contato com o caso da família de Peggy, talvez pudesse ser limada no corte final, que não faria falta alguma na trama, pois ficou parecendo algo muito falso. Felizmente, são apenas poucos segundos, algo que não desmerece o filme, de forma alguma. E, a conclusão, no "embate final" ficou um tanto rápida demais. Com um prolongamento maior desse desfecho, e tensão teria ficado ainda melhor. Mesmo assim, também não compromete a produção.

James Wan pode se gabar. Ele merece. Fez não só uma sequência melhor que a original (que já era, por demais, assustadora), como também realizou um filmão hollywoodiano como há muito não se via, deixando certas mega produções no chinelo. "Invocação do Mal 2" é prova cabal de que se pode fazer um produto de qualidade, mesmo com ideias já conhecidas. Basta talento e liberdade criativa. O resto, é o de menos.


Nota: 8,5/10.

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