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Dica de Filme

"Twin Peaks - Os últimos Dias de Laura Palmer" (1992)
Direção: David Lynch.


Simbologias e metáforas são parte importante para o cinema subsistir. Claro, não é fundamental, porém, é extremamente gratificante assistir um filme que utiliza de imagens, às vezes, desconexas para apresentar suas mensagens. E, o cineasta David Lynch é expert nisso, apesar de ter algumas produções em sua filmografia que, a bem da verdade, não querem dizer muita coisa. "Twin Peaks", ao contrário, tem muito a dizer, e, pra isso, testa o espectador, forçando-o a tentar entender a história de um ponto de vista não-linear.

Ele já começa com um assassinato. E, são as implicações desse acontecimento que vão permeando toda a produção, com personagens que aparecem e somem sem deixar vestígios, mas, amarrando o fio narrativo de maneira brilhante. As imagens oníricas vão se sobrepondo à realidade, num clima de tensão e paranoia intermináveis. Muitas vezes, Ficamos confuso do que é realidade e o que é fantasia dentro da história. De uma hora para a outra, drama vira terror, sem sobreaviso, e mesmo assim, não deixamos de acompanhar a história e tentar entender o que se passa.





Mesmo a estranheza fazendo parte do filme, fica muito mais prazeroso assistí-lo quando vamos descobrindo as sutilezas da trama, e suas formidáveis críticas. Por exemplo (e sem dar muitos spoilers), a história, num determinado momento, foca-se na tradicional família americana. Mas, pra um bom entendedor de Lynch, percebe-se que algo está errado nas relações entre pai, mãe e filha. Esta, por sinal, sente a necessidade de se drogar para encarar a realidade em que vive com o mínimo de sanidade. Suas alucinações atordoam ela (e, a nós), e são alguns dos pontos altos do filme.

Outro ponto de destaque na produção é a sua parte técnica, que dá mais sensação de clima de sonho (ou, seria pesadelo?) a "Twin Peaks". As imagens, unidas a uma fotografia de cores fortes, são formidáveis. O vermelho está sempre presente, seja para representar o sangue (a morte), seja para canalizar as paixões da protagonista Laura Palmer. Uma protagonista, por sinal, muito bem elaborada. Mesmo cheia de problemas, perturbada psicologicamente e viciada em drogas, é uma personagem cativante, que prende o espectador, fazendo com que ele se importe com o destino dela.




A trama, claramente dividida em duas, mas, juntando bem os acontecimentos também é otimamente escrita. Com referências que vão de filmes de espionagem, à mais provocativa crítica social, passando pelos mais tenebrosos filmes de terror, e com nuances até filosóficos sobre a vida e a morte, o enredo de "Twin Peaks" é sensacional. Deixando mais dúvidas do que respostas ao longo d sua projeção, o filme ainda nos presenteia com um dos mais bonitos e significativos finais da história do cinema, oniricamente redentor e muito, muito triste.

A produção, porém, tem lá os seus defeitos. A exploração do corpo nu da protagonista talvez incomode bastante, ficando aquela sensação de que tais cenas não necessitavam ser tão explícitas, visto que a personalidade de Laura Palmer já estava muito bem delimitada logo nos primeiros minutos em que ela aparece. Em suma, são somente apelações que não acrescentam nada à trama. A primeira parte do filme, calcada na investigação do tal assassinato, carece de ritmo em alguns momentos, ao contrário da perfeita segunda parte. Nada que desabone tanto o longa, porém, um enredo mais enxuto nesses instantes ajudaria.




No fim, o que temos é um filme de difícil digestão, que aborda assuntos delicados com bastante dor e violência, mas, que também possui uma beleza ímpar e uma melancolia latente. Provavelmente, a melhor sequência que exemplifica isso é a da boate, em tons extremamente vermelhos, música com clima pesado e personagens vazios em sua existência. Um breve resumo da nossa sociedade atual, do sofrimento dos rejeitados, dos marginalizados em busca de razões. Um dos melhores filmes de Lynch, sem dúvida, mas, que requer paciência. Depois, a recompensa de ter assistido a um grande filme virá.

Nota: 9/10.

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