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Debate Sócio-Político

A Educação (como sempre) na Berlinda
Por Erick Silva


Uma boa educação é primordial para qualquer nação, desenvolvida ou em desenvolvimento. Disso, todos sabemos. Então, como, em pleno 2016, as deficiências no sistema educacional brasileiro continuam gritantes? Vários fatores contribuem para isso, e um deles está no cerne da mais recente proposta do Governo Federal para a reforma do Ensino Médio: a regulação ideológica no trabalho do professor (absurda) e o novo tratamento dados a determinadas matérias escolares, em detrimento de outras, o que provavelmente resultará num prejuízo para a formação dos alunos.

Pra quem duvida de algum desses pontos, basta olhar um rápido organograma que desenha, em linhas gerais, o novo modelo que poderá ser adotado para o Ensino Médio a partir de agora:


De cara, percebe-se o óbvio: as matérias de exatas foram privilegiadas em relação às de humanas e linguagens. A de Matemática Básica, por exemplo, só terá um tópico para o professor que irá abordá-la em sala de aula. Já, a parte de humanas terá, nada menos, do que 5 matérias a serem administradas por um único docente. Está mais do que claro que professores de certas disciplinas estarão mais sobrecarregados do que outros, e, justamente, naqueles tópicos (bingo!), em que o aluno desenvolve mais o seu senso crítico em relação às coisas do mundo e da realidade. Sem querer ser paranoico, mas, é só lembrar que, na Ditadura Militar, as disciplinas de Sociologia e Filosofia foram substituídas por outras mais "práticas" (O.S.P.B. e Moral e Cívica). 

Além de, na prática, sobrecarregar o trabalho do professor, colocando-o numa jornada de tempo integral, um outro ponto da referida proposta visa colocar mais alunos em sala de aula, para cobrir, digamos, o "déficit" de alunos fora da escola., embora esta medida seja contrária ao que aconsleham os especialistas na área. Dante Henrique Moura, professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), diz que "o objetivo da reforma é baratear o ensino público, o que comprometeria a educação dos estudantes mais pobres, privando-os de um Ensino Médio completo." Já, o governo argumenta que o ensino médio é o que está em pior situação quando comparado às séries iniciais e finais da educação fundamental. A meta dessa fase do ensino para 2015 era de 4,3 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), mas ficou em 3,7. Na visão do governo, a reforma faria o índice subir.

Reforma na Educação condizente com os novos tempos:

Nesse sentido de indicadores da Educação, a professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Edileuza Fernandes da Silva, argumenta: "Se a preocupação é no sentido de dizer que o ensino médio não forma nem pra universidade nem pro mercado de trabalho, nós não podemos fazer uma análise do ensino médio apenas por indicadores externos de avaliação, como vem sendo colocado pela mídia e pelo governo. O Ideb só não explica. A gente precisa entender a escola por dentro. É preciso ouvir os estudantes pra saber quais as expectativas desses jovens, o que eles pensam sobre a escola e sobre o currículo. Tenho muita preocupação com reformas feitas em gabinetes, principalmente se o que estiver por trás forem interesses mercadológicos."

Como sempre, governo opta por cortes e outros paliativos: 

Só que, para muitos, verdade seja dita, o sistema educacional brasileiro é falho por não privilegiar a aptidão do aluno em determinadas áreas, o que essa reforma, "em tese", tenta suprir. Numa antiga entrevista ao programa Sem Censura, da TV Cultura, o consultor em gestão empresarial e psicólogo Waldez Luis Ludwig expôs uma opinião interessante: "Você tem um filho, e ao receber o boletim dele, tem 10 em matemática e 6 em história. O que faz a mãe? Bota ele numa aula particular de História. O que ela deveria fazer? Colocá-lo numa aula particular de Matemática onde ele desenvolveria mais ainda a habilidade que ele naturalmente já tem com números. Ao incentivar o filho a estudar mais História, ela involuntariamente cria um profissional mediano que é apenas bom em tudo mas não é excepcional em nada."

O problema dessa reforma que o governo Temer quer implantar é que ela se baseia nos fins, e não nos meios para se conseguir resultados práticos melhores para alunos e professores. Ao sobrecarregar o trabalho do docente, e entupir salas de aulas com dezenas de alunos, o Estado, em contrapartida, não oferece estrutura adequada para esse tipo de mudança. É bom lembrar que, nos últimos anos, a desistência da profissão de professor tem aumentado significativamente, o que compromete ainda mais o sistema educacional. Os motivos para o abandono dos docentes são diversos, desde agressões físicas e psicológicas dos próprios alunos, até uma jornada de trabalho exaustiva para poder complementar a renda. É mais um fator não levado em conta pela atual reforma proposta pelo MEC.

Quando a ficção se torna uma perigosa realidade:

"Interessante" notar também que a disciplina que, provavelmente, sofrerá mais com essa reforma é a que mais tem se destacado nos exames do ENEM. Na prova realizada em 2015, por exemplo, a área de Ciências Humanas pulou de uma média de 546,5 para 558,1. Já, em Ciências da Natureza, a média caiu de 482,2 para 478,8, Linguagens e Códigos, de 507,9 para 505,3 e Matemática de 473,5 para 467,9. Outro fator essencial para compreendermos um certo "desmonte" de algumas áreas do Ensino Médio é que, além de ser uma medida imposta e pouquíssimo debatida com a sociedade civil, essa reforma está feita, notadamente, às pressas, completamente atrapalhada. Tanto é que o texto inicial da medida tornana matérias como Filosofia e Sociologia optativas. Porém, nas últimas horas, o próprio MEC admitiu o "erro", e divulgou o texto "real" do projeto, dizendo que tais matérias continuarão sendo, sim, obrigatórias na grade curricular.

A Educação no Brasil, pelo visto, não vai mudar pra melhor tão cedo. Mesmo quando parece que estamos fazendo o certo, estamos indo por um caminho equivocado, imitando bons modelos em péssimas estruturas. Ao invés de uma reformulação do que apresenta deficiências, o que temos é apenas um mero paliativo, com cheiro de certos interesses no ar. Como essa é uma área essencial a qualquer país, minimamente, civilizado, podemos deduzir que nossa terra brasilis continuará atrasada e na barbárie.

Apenas esperar para que as sábias palavras do saudoso historiador Nicolau Sevsenko a respeito do sistema educacional brasileiro, um dia, sejam ouvidas, entendidas e postas em prática. Torçamos.

Entrevista com o historiador Nicolau Sevcenko, 
no Programa Provocações - Bolco 01:

Entrevista com o historiador Nicolau Sevcenko, 
no Programa Provocações - Bolco 02:

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