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Lista

15 Músicas da MPB com Forte Teor Social


Quase sempre lembrada por seu estilo intimista, banquinho e violão, e com letras, geralmente, que falam de amor, a MPB também tem a sua cota de revolta, algumas vezes, sendo mais crítica do que muitos rocks por aí. Esse engajamento teve o seu auge durante a Ditadura Militar, aonde a censura, sem dó nem piedade, proibia até mesmo aquelas músicas mais inofensivas. Burlando os censores, e se posicionando da maneira que dava, muitos compositores realizaram verdadeiras obras-primas da MPB, com um viés sócio-político, ainda hoje, muito forte. É bom lembrar que existem bons exemplos de engajamento no estilo nos dias atuais, tipo um Lenine, em que boa parte de suas letras têm uma veia mais crítica. Por isso, quando pensarmos em MPB, imaginemos não somente bonitas canções de amor, mas também músicas de protesto (muito) necessárias hoje em dia.


15°
"Ecos do Ão"
Compositor(es): Lenine / Carlos Rennó.
Fazendo parte do melhor disco de Lenine, "Falange Canibal", a música "Ecos do Ão" possui o típico jogo de palavras empregado por ele em suas composições. O "ão" são os ecos das mazelas sociais que nos consomem dia após dia (podridão, corrupção, degradação, contradição, humilhação), mas, também faz parte das nossas mais profundas esperanças (razão, intuição, coração, nação). Inteligente e mordaz, a canção mostra que ainda temos muito a evoluir, mas, sem desistir.


14°
"A Triste Partida"
Compositor(es): Patativa do Assaré.
Composta pelo genial poeta (já falecido) Patativa do Assaré, "A Triste Partida" é uma das mais belas músicas que retrata a saga do sertanejo em meio à seca. Lançada no disco homônimo de 1964, a canção foi ouvida, um ano antes, pelo próprio Gonzagão enquanto passeava pela feira de Campina Grande. Um violeiro cantava uma toada (lamento sertanejo em forma de gênero musical), tendo como base a letra de "A Triste Partida". Ao saber de quem era a composição, Luiz Gonzaga procurou Patativa, e lhe fez a seguinte proposta: "Patativa, escutei uma música sua da qual gostei muito, cantada por um violeiro lá em Campina Grande. Tenho interesse em gravar. Você me dá a parceria?" Imediatamente, o poeta retrucou: "Se eu não gostasse tanto de você, ia lhe mandar praquele canto, mas assim mesmo vou lhe mandar plantar feijão". E, eis que surgiu uma das mais importante músicas do repertório do Rei do Baião.


13°
"Ouro de Tolo"
Compositor(es): Raul Seixas.
Hoje em dia, é até relativamente fácil se criticar a Classe Média brasileira, e o seu jogo nefasto de interesses, apoiando as coisas mais absurdas em nome da manutenção do seu status quo. Mas, imaginemos uma crítica dessas, ainda mais feroz, lançada em plena Ditadura Militar? Pois, foi isso que Raulzito se atreveu a fazer. Composição presente no primeiro disco solo do Maluco Beleza, "Ouro de Tolo" faz referência direta à Idade Média, sendo uma expressão usada para designar as falsas promessas dos alquimistas. O que Raul Seixas fez foi adaptar esse conceito para a nossa recente "Idade das Trevas", compondo uma letra bastante irônica sobre a inércia e a vida vazia de uma parcela da população que só estava interessada em "ficar num apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar". Toca Raul!


12°
"Romaria"
Compositor(es): Renato Teixeira.
A mais conhecida composição de Renato Teixeira, traz uma tradição bastante comum no Brasil: a devoção aos santos, mais precisamente, à Nossa Senhora de Aparecida. Com um ritmo que emula totalmente o universo caipira, a canção teve estrondoso sucesso nas vozes de Elis Regina e Sérgio Reis. O próprio Teixeira já disse a respeito: "Repaginei a música caipira, dando a ela um perfil mais condizente com sua grandeza original, readaptando-a a uma linguagem, digamos, mais MPB e mais adequada aos tempos modernos." E, de fato, a beleza da música, ainda hoje, encanta pela simplicidade que emana de um povo de muita fé.


11°
"Segue o Seco"
Compositor(es): Marisa Monte / Carlinhos Brown.
Realmente, existem várias canções que retratam as dificuldades da seca no Nordeste, mas, a composição de Carlinhos Brown conseguiu unir bem o popular e o erudito de uma poética mais rebuscada, unido à interpretação poderosa de Marisa Monte. Inclusive, o belo videoclipe foi bastante premido à época, retratando muito bem toda a poética da letra, que possui versos inspirados, como "Ô chuva, vem me dizer / Se posso ir lá em cima prá derramar você / Ó chuva, preste atenção / Se o povo lá de cima vive na solidão."


10°
"Sinal Fechado"
Compositor(es): Paulinho da Viola.
Escrita na década de 60, e regravada anos depois para um disco de covers de Chico Buarque, "Sinal Fechado" é uma das críticas [mais sutis e inteligentes ao Regime Militar. Some-se a isso o fato da melodia dela não ser, exatamente, agradável, causando, propositalmente, um certo desconforto. Vários trechos dela evidenciam esse sentimento de clausura, de inquietação, de incerteza: "Olá, como vai ? / Eu vou indo e você, tudo bem ? / Tudo bem eu vou indo correndo / Pegar meu lugar no futuro, e você ? / Tudo bem, eu vou indo em busca / De um sono tranquilo, quem sabe ..." Usando de belas metáforas, e até mesmo do silêncio em alguns momentos, a obra máxima do príncipe do samba Pulinho da Viola, realmente, é atemporal.



"É Proibido Proibir"
Compositor(es): Caetano Veloso.
Só o título já diz tudo. Ano de seu lançamento: 1968, pouco antes do famigerado AI-5. Portanto, música certa no momento certo. E, é claro que, como toda ousadia que se preze, esta não foi recebida, nem sequer, pelo público "antenado" da época. Numa histórica apresentação no 3° Festival Internacional da Canção, da TV Globo, Caetano foi imensamente vaiado enquanto cantava "É Proibido Proibir" ao lado d'Os Mutantes. Como resposta, fez um discurso que entrou para a história: "É essa a juventude que diz quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudirem, esse ano, um tipo de música que não teriam coragem de aplaudirem no ano passado. É a mesma juventude que vai sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. Vocês não estão entendendo nada, absolutamente nada. Que juventude é essa?"



"O Bêbado e o Equilibrista"
Compositor(es): João Bosco / Aldir Blanc.
"O Bêbado e o Equilibrista" não é apenas uma bonita canção. Rapidamente, transformou-se num hino, não apenas contra a Ditadura, mas, em favor da anistia dos exilados. Usando de diversas referências, que iam do personagem Carlitos, de Chaplin, até o irmão do cartunista Henfil, o sociólogo Herbert de Souza, a música tem uma forma extraordinária, que simboliza esperança e luta. Há, ainda, a citação às Marias e Clarices, que representavam as viúvas dos presos políticos (Maria, esposa de Manoel Fiel Filho, e Clarice, companheira de Vladimir Herzog, ambos mortos nos porões do DOI-CODI). Um dos maiores clássico da MPB, e que na emocionante interpretação de Elis Regina, ficou ainda mais soberbo.



"Canção do Sal"
Compositor(es): Milton Nascimento.
Falar da sensibilidade de Milton é meio que chover no molhado. Em suas músicas, geralmente, ele deixa transparecer muito a sua preocupação com as coisas do mundo, e com o ser humano. Mas, em "Canção do Sal", sua mensagem atinge um nível de consciência absurdo, denunciando as condições sub-humanas dos trabalhadores das salinas, mas, de um texto tão forte, que facilmente ele pode ser  colocado para outras profissões em que o trabalhador é tudo, menos, gente. Tendo como inspirações um livro sobre jazz, que falava das cantigas dos negros às margens do Mississippi, e de uma viagem que feita às salinas de Cabo Frio, Milton compôs uma música fantástica, que ele mesmo tinha receio de mostrar no início da carreira, por achar que a melodia não estava boa. Como se vê, todo gênio tem a sua cota de modéstia.



"Acender as Velas"
Compositor(es): Zé Keti.
Numa época em que o sambista ainda tinha muita fama de malandro, e nada mais, o grande Zé Keti, surgiu com uma composição que denunciava o descaso das autoridades com os moradores da favela. O trecho "O doutor chegou tarde demais / Porque no morro / Não tem automóvel pra subir / Não tem telefone pra chamar" já diz muita coisa. Como o samba ainda tinha a alcunha de marginalizado, até mesmo dentro da própria MPB, "Acender as Velas", ao que parece, passou batida pelos censures. Mesmo assim, é uma das melhores críticas sociais feitas naquele período, dando visibilidade a uma parcela da população, historicamente, esquecida por muitos.



"Eu Quero é Botar o Meu Bloco na Rua"
Compositor(es): Sérgio Sampaio.
Entre os chamados "desbundados", ou seja, os adeptos da contracultura, "Eu Quero é Botar o Meu Bloco na Rua" se tornou o hino perfeito para atacarem a Ditadura. Ela foi apresentada pela primeira vez no 4° Festival Internacional da Canção, em 1972 e fez grande sucesso no carnaval de 1973. Grande amigo de Raul Seixas, o canto e compositor Sérgio Sampaio teve uma providencial ajuda do Maluco Beleza para a gravação do seu primeiro disco, e é nele que se encontra esta música, um jeito "viajado", e ao mesmo tempo sóbrio de protestar contra um regime autoritário.



"Que as Crianças Cantem Livres"
Compositor(es): Taiguara.
A própria história de Taiguara é fascinante. Nascido no Uruguai, mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, aonde participou de diversos festivais nas décadas de 60 e 70. Com um espírito sempre inquieto, foi um dos compositores mais censurados na Ditadura Militar, tendo, nada menos, do que 48 canções vetadas no período entre 1970 e 1974. Obviamente, teve que partir para o exílio, morando na Espanha, na França e na Tanzânia, onde estudou jornalismo e chegando a escrever um livro que nunca foi publicado. "Que as Crianças Cantem Livres" já é auto-explicativa pelo título, mas, a letra faz questão de reforçar: "E, que as crianças cantem livres sobre os muros / E, ensinem sonhos aos que não podem amar sem dor / E, que o passado abra os presentes pro futuro".



"Pra Não Dizer que Não Falei de Flores"
Compositor(es): Geraldo Vandré.
Um dos hinos máximos contra o Regime Militar foi composto para o Festival Internacional da Canção de 1968. Como uma espécie de prelúdio para os anos de horror que viriam após o AI-5, a música tinha uma letra extremamente comovente: "Somos todos iguais / Braços dados, ou não." Com palavras que denotavam a estupidez dos militares em geral, Vandré passou a ser cada vez mais perseguido, até entrar numa profunda depressão, e mergulhando num triste ostracismo. Uma das histórias mais sofridas da MPB, e que mostra o preço que muitas vezes pagamos por nos posicionar diante do que está errado. 



"Admirável Gado Novo"
Compositor(es): Zé Ramalho.
Zé Ramalho sempre foi mais um poeta, um declamador, do que um cantor. Mas, é justamente na música em que ele consegue cantar melhor, com uma melodia incrível, que ele será lembrado para sempre. Fazendo alusão à famosa obra distópica de Aldous Huxley, "Admirável Gado Novo" é repleta de grandes metáforas ao povo que trabalha como gado, à inércia de nossa sociedade, e a uma infinidade de outras coisas. Pra quem se aventura a pesquisar sobre essa composição, vai encontrar um gama considerável de significados, e todos pertinentes até os dias atuais.



"Cálice"
Compositor(es): Chico Buarque / Gilberto Gil.
Em 1973, o show Phono 73 tinha como objetivo reunir duplas de grandes artistas da gravadora Phonogram para um evento especial. Para a apresentação, Chico e Gil compuseram a seminal "Cálice", cujo título, além de fazer alusão à oração de Cristo no Jardim do Getsêmane ("Pai, afasta de mim este cálice"), tinha, como trocadilho, a expressão "Cale-se", numa óbvia referência à censura da época. A música, no geral, é uma homenagem a Stuart, filho assassinado de Zuzu Angel (grande amiga de Chico), e um protesto à sua violenta morte ("Quero cheirar fumaça de óleo diesel / Até que alguém me esqueça"). Uma das mais impactantes canções da MPB, sem dúvida.

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