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Dica de Filme

"O Jogo das Decapitações" (2013)
Direção: Sérgio Bianchi


Raiva, muita raiva. É assim que o cineasta Sérgio Bianchi pode ser traduzido em praticamente todos os seus trabalhos. E, aqui, não poderia ser diferente, com um diferencial importante: a metralhadora de críticas do diretor aponta para todos os lados, claramente, dando um verdadeiro tapa na cara tanto na Direita, quanto na Esquerda. Por causa disso, fica até difícil indicar "O Jogo das Decapitações", pois, como ele propõe um debate além das obviedades, sem o minimalismo de apontar somente um partido ou ideologia como certo ou errado, ele desagrada a uma extensa maioria que polarizou o debate de ideias nos últimos anos. E, isso é ótimo, principalmente, se pensarmos em filmes brasileiros que limitaram (e, muito) o debate de ideias (caso de "Tropa de Elite" e, mais recentemente, "Aquarius").

Em "O Jogo das Decapitações", de início, vemos uma cena que parece tirada de uma peça antiga de teatro ou de um cinema mais "underground" de anos atrás. Isso, para depois, passarmos a conhecer o protagonista do filme, o inquieto e introspectivo Leandro, um típico rapaz de classe média, que, sem trabalho e sustentado pela mãe, dedica-se a uma tese de mestrado, cujo tema é o período da Ditadura Militar. Em meio às pesquisas, ele conhece o trabalho do cineasta maldito Jairo Mendes, que, atualmente, foi preso pelo assassinato de sua esposa. Com o passar do tempo, Leandro passa a se envolver e se identificar cada vez mais com as ideias do controverso diretor, ao mesmo tempo que busca encontrar "O Jogo das Decapitações", filme de Jairo, censurado pelo Regime Militar, e até hoje, desaparecido.




Essa é apenas a linha mestra da trama, o que proporciona a Bianchi expôr bastante de sua fúria contra a mediocridade da sociedade. O "porta-voz" do cineasta, digamos assim, parece ser Rafael, amigo de Leandro, que sempre está incomodado com o discurso fácil de alguns militantes de Esquerda, e, por isso, não raro, é chamado de reacionário. São dele as melhores falas, como, por exemplo, quando uma espécie de museu é inaugurado em homenagem às vítimas da Ditadura Militar, e ele presencia uma pequena apresentação teatral, simulando um ato de tortura. Então, ele diz à mãe de Leandro, idealizadora do projeto:

"Esse 'parque temático' é pouco demais, não acha? Não incomoda à senhora, que foi presa, ver essa exaltação dessas ao sofrimento e à tortura? Eu não vivi na época da Ditadura, é verdade, mas, se a gente for pensar bem, a tortura é um instrumento de poder desde o Brasil colônia. Desse tempo pra cá, só em apenas alguns poucos anos, teve gente da classe média que foi torturada. Agora, louvar isso como um estado de exceção é classismo!" 

"Reaça!", gritam os mais eufóricos.




Com o passar do tempo, e com sua mãe mais e mais envolvida na questão das indenizações às vítimas da Ditadura Militar (não por acaso, e de maneira muito provocativa, todos são brancos e de classe média), Leandro vai tomando outra forma de consciência. Exemplo disso, é quando, simbolicamente, ele cobre um organograma bem detalhado que fez para a sua tese de mestrado com recortes de notícias, cartas e fotografias de Jairo Mendes. De forma prática, ele passa a questionar de maneira mais categórica a nítida divisão de classes de muitos que protestam contra o Regime Militar. "Anistia ampla, gradual e irrestrita? E, os presos comuns, como ficam?"

Para compor seu enredo com mais vigor ainda, Bianchi usa bastante de imagens oníricas, como se fossem sonhos (seriam alucinações?) em que Leandro se sente oprimido, e sente a violência dos "decapitados", os que sofrem suas ditaduras cotidianas, sem o mínimo de atenção do Estado ou dos militantes de qualquer um dos lados. Sem indenização, sem respeito, sem dignidade (e, ainda torturados). São sub-textos difíceis de construir, afinal, a fogueira das vaidades dos que pregam ideologia A ou B pode ofuscar a reflexão pertinente que Bianchi propõe neste filme. Mas, o diretor dribla isso com segurança no discurso que acredita, sem medo ou covardia de qualquer patrulha que viesse a sofrer.




Como cinema, podemos dizer que "O Jogo das Decapitações" é estranho, pelo menos, na forma usual de vermos a sétima arte. Mas, não podemos acusar o diretor de oportunismo. Bianchi sempre fez filmes brutais, pra colocar o dedo na ferida, desde sua estreia em "Maldita Coincidência", em 1979 (por sinal, cujos trechos estão nesse outro filme, como sendo uma produção do cineasta fictício Jairo Mendes). Quem já está acostumado com Bianchi, irá encontrar aqui muito de sua obra e de sua personalidade. Se ele está certo ou errado em suas observações, cabe refletirmos em cima do que ele expõe, e não julgá-lo, meramente.

Pra quem ousar assistí-lo, a única exigência e se despir de qualquer vaidade ou ego que venha a considerar Bianchi como um reacionário. Afinal, não estamos falando de Lobão, Roger ou Danilo Gentili, e sim, alguém com inteligência ímpar, e que já está aí, há muito tempo, fazendo um cinema de provocação, expondo nossas mazelas e sacudindo nossas ideias. Se a sociedade atual não possui maturidade suficiente para assimilar tais críticas, não culpemos Sérgio Bianchi, e sim, a nós mesmos. Um dia, talvez, chegaremos lá.


Nota: 9/10


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