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Dica de Filme

"Delirious" (2006)
Direção: Tom DiCill


Se fazer comédia no cinema já é complicado, imaginem, então, fazer uma comédia crítica, com boas de ironia, e, ainda assim, ser engraçada. Pra poucos, não é verdade? Pois, o diretor Tom DiCill conseguiu essa proeza com "Delirious". Já há algum tempo realizando ótimos filmes no meio underground, o cineasta construiu aqui uma bem-vinda paródia ao mundo das celebridades, com bastante acidez. E, mesmo que já tenha mais de 10 anos, o filme continua propício em sua crítica à futilidade não só das estrelas da moda, como do público que consome tudo isso. Se alguém se lembrou dos famigerados reality shows, essa realmente foi a intenção.

O roteiro de "Delirious" é engenhoso ao colocar como protagonistas três pessoas, de mundos distintos, mas, que um depende, indiretamente do outro. Toby é um sem-teto que perambula pela cidade em busca de abrigo, enquanto sonha em ser ator. Já, Les Galantine é um paparazzi que não suporta de ser chamado de paparazzi, pois, acredita que seu trabalho de flagrar celebridades está acima disso. E, por fim, a estrela pop K'Harma Leeds, simpática aos olhos do públicos, mas que, fora das câmeras, está cheia de problemas pessoais. E, a vida dos três vai se entrelaçar, gerando, assim, alguns conflitos, e a oportunidade necessária para refletirmos sobre o que a história quer passar.




Interessante notar que, mesmo sendo personagens com personalidades diferentes, eles têm uma coisa em comum: sérios traumas com os pais. Enquanto Toby tem uma cicatriz no rosto devido a uma discussão com a mãe, os pais de Les são extremamente arrogantes e crueis com o próprio filho, desdenhando tudo o que ele faz, inclusive e principalmente, no seu trabalho de fotógrafo. Para completar, K'Harma está sendo processada pelos pais, que querem uma "indenização dela", agora que ela é famosa. Ou seja, a trama, que se presta a satirizar o mundo pop das celebridades, não deixa de lado questões da "vida cotidiana", aonde os conflitos familiares, muitas vezes, molda que somos, cada um à sua maneira. Toby, por exemplo, é tranquilo e sereno, ao passo que Les é arisco e violento. Não que o roteiro coloque a culpa disso em seus respectivos pais, mas, deixa claro a que nível de influência uma educação mal feita pode ser capaz.

O grande atrativo da história, porém, é a sua veia cômica e crítica ao mesmo tempo, o que proporciona momentos engraçadíssimos, mesmo que a gente se vaja parando pra pensar, e diga: "mas, eu não deveria estar rindo disso!" E, é esse o ponto-chave, quando o filme dialoga com o espectador, no sentido de questionar até que ponto nós alimentamos esse mundo de futilidades. O consumo só existe pela demanda. A procura pelo espetáculo mórbido, grotesco e constrangedor. Tudo em nome da audiência, da venda desenfreada de tablóides. Basta tirar a foto do melhor ângulo possível, mesmo que isso signifique invadir a privacidade alheia nos seus momentos mais íntimos. Por levar a esse tipo de questionamento, "Delirious" é o tipo de filme que merece ser exaltado. Com louvor.



 
Porém, no seu ato final, o filme peca em alguns pontos, principalmente no tocante ao romance de Toby e K'Harma, que ocupa um tempo excessivo na história, beirando (só um pouco o pieguismo). Também há a estranha atitude de Les nesses instantes, que dão a entender que a produção vai descambar para uma tragédia desnecessária, o que ia destoar do tom do enredo completamente. Felizmente, com o passar do tempo, a intenção do roteiro, nesse aspecto, é revelada, mostrando que alguém como um paparazzi, ou simplesmente, alguém que devassa a vida privada dos outros é responsável por muitas vidas destruídas. Pra quem conhece a história da saudosa cantora Amy Winehouse, com certeza, saberá entender melhor esse recado.

Este é um filme com destaque também para os atores, e não somente para a história. Não há o que reclamar, pois de Steve Buscemi (sempre ótimo), ao intimista Michael Pitt, passando pela competência de Alison Lohman, todos desempenham muito bem seus papeis. Há até uma inusitada participação de Elvis Costello, numa sequência impagável. O diretor Tom DiCillo sabe muito bem conduzir histórias simples, extraindo um grande potencial em situações absurdas. Sua condução é dinâmica e ágil, só perdendo um pouco o fôlego em alguns momentos pontuais, já no final da produção. Mesmo assim, é um trabalho de respeito, e que merece elogios.




Pra quem está acostumado a essas comédias pastelão apelativas, ou de cunho romântico inocente, certamente vai estranhar um filme como "Delirious", que consegue fazer humor através da crítica, de maneira realmente inteligente e não convencional. Mas, pra quem quer assistir a algo que fuja da mesmice, tenha algo a dizer, e ainda assim, consiga divertir, com certeza, esta é a produção certa. Além disso, ela não apela para soluções simples, e nem pesa a mão com os seus personagens. Afinal, a intenção aqui não está apenas em julgar as pseudo-celebridades que surgem a todo instante, mas, em nós nos julgarmos também, principalmente, ao que a gente consome sob a alcunha de "diversão". Provocativo, não?

PS: assistam ao filme até o último minuto após os créticos. A espera vai compensar.


Nota: 8,5/10


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