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Dica de Filme

"Elefante" (2003)
Direção: Gus Van Sant


Tem uma expressão popular que diz: "Tem um elefante no meio da sala". A interpretação para ela é que, às vezes, estamos diante de um grande problema, bem visível, mas, que não fazemos nada para resolvê-lo. Ao contrário: ignoramos. E, é a partir disso que vem o título deste filme, "Elephant", visão do sempre interessante cineasta Gus Van Sant para o massacre ocorrido na Columbine High School, em 1999. Pra quem conhece o trabalho de Van Sant de linga data, sabe que ele gosta de realizar trabalhos de forma não-convencional, testando o espectador médio com um cinema completamente autoral. Com "Elephant" não é diferente, já que o filme consegue, ao mesmo tempo, ser chocante e nem um pouco apelativo na abordagem a um tema tão delicado.

O desafio já começa pela estrutura narrativa da produção, que lembra desde "Pulp Fiction" até "21 Gramas", ou seja, feita de forma não-linear. Na realidade, o que temos em 80% do filme é o retrato do cotidiano de estudantes comuns, vivendo vidas comuns. A câmera de Van Sant é uma espécie de "cúmplice" desses momentos, mais acompanhando os personagens, do que "filmando-os", digamos assim. E, a maioria dessas cenas é feita em longos planos-sequência, como se estivéssemos ali, ao lado de cada um, sendo confidente de suas conversas, sentindo suas angústias, rindo das suas piadas, etc. Um método muito interessante de imersão, que aqui funciona à perfeição, e vai nos ambientando, e nos fazendo ficar cada vez mais desconfortáveis, afinal, já sabemos o que irá acontecer.




A apresentação dos personagens principais (ou, pelo menos, aqueles que serão melhor explorados no roteiro) vai sendo feita de acordo com a narrativa não-linear. Num determinado momento, estamos vendo a ação de um deles, para depois, a cena ser cortada, e passarmos a conhecer outro personagem, cujas ações se desenrolam em paralelo em relação ao que presenciamos antes. Pode parecer complicado, e talvez demore um tempo para o expectador não acostumado a esse tipo de experimentalismo ir compreendendo a trama, e juntar as peças. Mas, com um pouco de paciência, vamos percebendo que uma das intenções do diretor é nos forçar aos diversos pontos de vista. Pelo seu roteiro não fazer juízos de valor de nenhum personagem, e não oferecer teoria simplistas, Van Sant nos convida à reflexão, fazendo mais perguntas do que dando respostas prontas.

São esses diversos pontos de vista, sem tentativas de explicar algo, que diferencia "Elephant", por exemplo, de"Tiros em Columbine" ou de "Precisamos Falar Sobre Kevin", aproximando-o mais de "Polytechnique", do canadenses Dennis Villenueve, que trata do mesmo tema, e não tenta apontas soluções fáceis. O que vemos em "Elephant" é o absurdo da banalidade, do vazio de uma sociedade, cujos jovens são bastante criticados por sua futilidade, mas, os adultos que os julgam não se mostram tão diferentes assim. Os próprios motivos dos assassinos não são bem explicitados. O que temos, ao longo da história, são alguns pontos que podem levar a alguns questionamentos, como, por exemplo, o fato deles gostarem de games violentos ou de terem extrema facilidade para comparem armas pela Internet, passando pelo gosto peculiar deles em assistirem documentários sobre o Nazismo. Mas, nada é colocado na trama para justificar o massacre, nem para condenar os assassinos. O ponto-chave aqui é um questionamento mais amplo e profundo, e, Van Sant sabendo disso, conduz essa proposta com maestria.




Mesmo com menos de uma hora e meia, "Elephant" imprime um ritmo lento, principalmente, devido aos seus planos-sequência. Esse, digamos, "teste de paciência", não é só proposital, mas, essencial para a proposta do roteiro, que visa nos envolver na vida daqueles jovens, tentar não só entendê-los, mas, buscar uma forma de ajudá-los, mesmo que, à primeira vista, todos estejam bem. É o que acontece, por exemplo, com três amigas, que, na frente dos colegas, não param de falar sobre coisas fúteis, até irritantes, mas, que, no banheiro, longe de todos, provocam vômito nelas mesmas, por se acharem gordas, e prezando ao máximo pela estética de seus corpos. Ou, no caso de uma garota que é considerada o "patinho feio" da turma, sendo frequentemente bastante ridicularizada por outras meninas, escondendo, com isso, uma grande solidão, e não conseguindo compartilhar isso com ninguém. Quantas pessoas, ao nosso redor, passam por problemas similares, sem que percebamos?

Para a sua estética quase documental, Van Sant não contratou nenhum ator profissional para as filmagens. Todos os adolescentes que vemos aqui são jovens que estudam na escola onde o filme se passa, o que dá ainda mais verossimilhança às situações. A naturalidade deles impressiona, e o cineasta soube usar muito bem isso a seu favor. E, falando mais nele, o diretor sempre foi na contramão em relação ao cinemão hollywoodiano, e "Elephant" não foge à regra. Sem absolutamente nada que lembre o dinamismo exageradamente desenfreado dos blockbusters norte-americanos, o filme aposta muito mais no conteúdo do que na aparência, mesmo que a sua técnica também seja um fator essencial para a qualidade da obra. Devido a isso, assistir "Elephant" não é tarefa das mais simples, pois, exige um certo grau de sensibilidade, bem diferente de outras produções sensacionalista, que usam e abusam do choque pelo choque.




Sim, "Elephant" é indigesto, sem dúvida. Mas, suscita um debate necessário. Um debate que poucos têm coragem de fazer. Afinal, é mais conveniente jogar a sujeira para debaixo do tapete, ou, nesse caso, fingir que o elefante não está na sala, e ignorá-lo. E, o mais incômodo do filme não são nem as cenas do massacre (mostradas apenas no seu ato final), mas, expôr a nossa fragilidade enquanto sociedade "bem estruturada", e que pensa saber lidar com os nossos jovens. Por sinal, quem quiser, ao pesquisar no Google pelos nomes dos assassinos reais em Columbine, vai se deparar com uma boa quantidade de cartuns, desenhos e coisas do tipo idolatrando os adolescentes que cometeram o tal massacre. Há ou não algo de errado com essa sociedade? E, diante disso, "Elephant" é ou não um filme essencial?


Nota: 9/10


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