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Dica de Filme

"O Encouraçado Potemkin" (1925)
Direção: Sergei Eisenstein


Alguns filmes transcendem a própria questão do cinema, transformando-se em algo além da arte em que estão inseridos. "O Encouraçado Potemkin", produção mais importante do russo Sergei Eisenstein, está nesse seleto grupo. Feito ainda na época do cinema mudo, e, por isso mesmo, tendo que se ancorar única e exclusivamente em suas imagens grandiosas, o filme possui algumas das sequências mais marcantes da história da sétima arte. Mas, não apenas em termos técnicos ele foi avassalador: a força de sua mensagem é tão monstruosa que ele chegou a ser proibido pelo regime fascista de Portugal até 1974, quando finalmente foi liberado.

Para a história, Eisenstein se baseou num fato histórico: o levante de marinheiros num navio de guerra em 1905. Lembrando que, nessa época, a Rússia ainda vivia sob o regime dos Czars, e, hoje, esse motim é considerado o precursor da Revolução de 1917. Não à toa, "O Encouraçado Potemkin" já começa com uma frase de Lênin. Sim, também estamos diante de uma obra completamente partidária, mas, que, em linhas gerias, não atrapalha a experiência de se assistir o filme. Afinal, até os dias atuais, há quem acredite que o Brasil vive sob a ameaça de uma ditadura socialista (!), então, chega a ser risível querer crucificar uma produção de quase um século de existência.




O longa é divido em 5 partes, e já na primeira, intitulada "Os Homens e as Larvas", já vemos a intenção de Eisenstein em criticar as péssimas condições em que viviam os trabalhadores daquele período, sendo obrigados a comerem carne podre, caso contrário, seriam duramente castigados. Temos, nesse momento, a preparação do que virá a seguir, com os marinheiros cada vez mais esgotados física e mentalmente. É na segunda parte ("Drama a Bordo") que ocorre um violento motim no navio, ocasionando a morte de um dos amotinados, justamente, o que começou o levante. Considerado herói, ele é levado para a cidade mais próxima, Odessa, onde seu corpo fica à mercê da visitação pública, numa crescente peregrinação de populares. Aqui, já estamos na terceira parte ("Um Homem Morto Clama por Justiça").

Só que é na quarta parte ("A Escadaria de Odessa") que vislumbramos o porquê de "O Encouraçado Potemkin" ser tão cultuado. Já não bastasse uma trama forte, que expõe inúmeras mazelas sociais, Eisenstein simplesmente provoca uma verdadeira catarse cinematográfica ao retratar o massacre de Odessa, quando as autoridades reprimiram com violência a população que estava se reunindo em favor da tripulação do Potemkin. As cenas que se seguem são, até hoje, incômodas, chocantes e revoltantes, culminando na mundialmente conhecida sequência em que um carrinho de bebê desce as escadarias em meio ao tumulto, no meio do tiroteio e de pessoas mortas nos degraus da escadaria. Mesmo que possa parecer um tanto apelativo nos dias atuais, esse momento do filme, serve, no final das contas, para denunciar algo que ainda existe: a repressão aos movimentos socais. Que Eisenstein tenha apontado isso no longínquo anos de 1925, já é, por si, algo fantástico.




A última parte do filme ("O Encontro com o Esquadrão") é, sem dúvida, o momento mais fraco da produção, mesmo sendo o mais decisivo para a trama. Isso porque o diretor se alongou demais nos preparativos para o encontro entre o Potemkin e a esquadra de navios russos. Essas cenas, que parecem se arrasatar além do permitido, até se justificam um pouco dentro da história, mas, ainda assim, são instantes que carecem de mais, digamos, "poder"; o mesmo poder que nos deixou estáticos e impressionados nas partes anteriores. Apesar disso, o final é satisfatório e completamente condizente com a proposta ideológica de Eisenstein.

O cineasta, por sinal, conseguiu ser pioneiro em diversos pontos com "O Encouraçado Potemkin", principalmente, no quesito "técnica". Para muitos, este filme foi o precursor dos efeitos especiais no cinema, e entendemos perfeitamente o motivo vendo não só a clássica sequências das escadarias de Odessa, como as cenas em alto-mar, ainda hoje, fantásticas. Inclusive, a famosa sequência das escadaria não estava inclusa no roteiro original. Eisenstein, simplesmente, decidiu filmá-la durante a produção em curso. Além disso, outras técnicas, como o uso de contrastes, e relações de corte e montagem, ainda servem como base para muitos filmes experimentais, o que só comprova a perenidade da obra.




Mas, o grande mérito de "O Encouraçado Potemkin" é realmente atravessar as décadas passando uma mensagem contundente, e que continua a ser relevante: a luta contra a opressão das autoridades e a necessidade de união entre o povo contra os desmandos de qualquer regime. Analisando um pouco mais a fundo a História, no entanto, chega a ser incômodo saber que o regime de Lênin e todos os outros oriundos da Revolução Russa a qual o filme presta alguma reverência, também foram regimes de penúria para a população. Mas, pensemos apenas que a obra-prima de Eisenstein foi feita ainda no calor da queda do czarismo, e portanto, era justificável uma certa ingenuidade no trato com essas questões, e até mesmo uma grande empolgação com relação às promessas de um novo tempo. O que, com certeza, não tira os méritos de "O Encouraçado Potemkin" como cinema político completamente atemporal e necessário.


Nota: 9/10


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