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Dica de Documentário

"Eu Não Sou o Seu Negro"
2016
Direção: Raoul Peck


IMPRESSIONANTE DOCUMENTÁRIO EXPÕE AS VEIAS ABERTAS DOS EUA ATRAVÉS DA HISTÓRIA DO NEGROS NAQUELE PAÍS

 Indo diretor ao ponto: "Eu Não Sou o Seu Negro" é um projeto "inacabado". O que é bom e ruim ao mesmo tempo. Explico: James Baldwin foi um escritor e ativista social muito conceituado entre os anos 60 e 80, tanto é que tinha boas relações com grandes líderes da causa dos negros na época, como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr. Após os assassinatos desses três, Baldwin, então, resolve escrever um livro sobre as questões raciais norte-americanas, envolvendo a vida e a morte desses líderes. Mas, não não deu tempo de concluir esse projeto: o escritor faleceu em 1987, Anos depois, o seu amigo, o produtor Raoul Peck, pega o esboço do livro inacabado de Baldwin, e faz, com ele, um documentário. Essa, por cima, é a história por trás de "Eu Não Sou o Seu Negro".





O documentário, mesmo curto para as suas pretensões (apenas uma hora e meia de duração), é rico e vasto em material, indo de palestras ministradas por James Baldwin, passando por discursos dos principais líderes negros retratados na história, e chegando até a acontecimentos violentos nos dias atuais, como a morte de Rodney King em 1991 (vítima de violência policial) e o massacre na escola de Columbine, ocorrido em 1999. "Eu Não Sou o Seu Negro" também usa de maneira inteligente e orgânica alguns filmes hollywoodianos para expressar a visão que se tinha (e, ainda se tem) no negro, sempre retratado como criminoso, subalterno ou simplesmente alguém que precisa ser dócil. Nesse ponto, o filme não se limita sobre à comunidade negra, mostrando que o cinema norte-americano também foi eficaz em demonizar a figura do índio, em especial, nos antigos faroestes.

À medida que o documentário avança, vamos sendo apresentados a um panorama terrível, aonde o discurso de que os negros não passam de uns "vitimistas" é antiga, como num programa de TV, onde Baldwin é confrontado por um professor de filosofia (branco, diga-se) que disse que devíamos deixar essa questão racial de lado, e evoluirmos, pois, independente da cor, religião, etc, as pessoas deveriam ser julgadas por outros atributos. Baldwin, por sua vez, retruca dizendo que não pode ter fé ao colocar em risco a vida de seus familiares, amigos e a sua própria em nome de uma ideologia de igualdade que ele não vê na prática. Entendendo algo tão simples, a plateia do programa imediatamente o aplaudiu. É interessante notar que Baldwin nunca foi radicalmente a favor de nenhuma militância da época, seja a dos líderes focados aqui neste documentário, seja com os Panteras Negras, ou seja com qualquer outro movimento. Ele tinha ciência dos privilégios dos brancos na sociedade, mas, não os odiava por isso, tanto é que classificou o racismo como um misto de ignorância e medo. Assim, pôde transitar em diferentes mundos, passando sua importante mensagem de como os negros eram relegados a uma condição sub-humana nos EUA.





E, o documentário segue provocando, incomodando. Não tem pudores (que bom!) aos mostrar negros sendo barbaramente espancados pela polícia (nos dias atuais, inclusive), ou então, pendurados em árvores, sob a bênção da Klu Klux Klan. Por sinal, o fator religioso também é abordado de forma devida aqui, seja com Baldwin explicando que não pode se identificar com a comunidade cristã norte-americana, já que segregação nas próprias igrejas, seja nos comentários infelizes de manifestantes da época, onde uma mulher, por exemplo, teve a capacidade de dizer na frente de uma câmera que "Deus perdoava o assassinato e até o adultério, mas, não a miscigenação com os negros". Olhando para esse panorama tétrico, há o inevitável questionamento se alguma coisa, de fato, melhorou nesse sentido, principalmente, se lembrarmos da violência que algumas comunidades negras sofreram nos EUA ano passado, após a vitória do ultraconservador Donald Trump à presidência.

O uso de filmes da época é muito bem explorado para mostrar como a visão a respeito do negro foi deturpada através da arte, seja num racismo mais escancarado ("A Cabana do Pai Tomás"), até a alguns que expõem algo mais velado, mais sutil (como em "Acorrentados"). São análise muito interessantes, que aproveitam para fazer um paralelo com a sociedade, em especial, o chamado "american way life", o estilo de vida americano, que. além de não conseguir deixar a população feliz como sempre prometeu, ainda produz inimigos sociais (os negros), que seriam "anomalias" ao bom funcionamento do sistema. Talvez, no quesito cinema, tenha faltado citar o extremamente nocivo "O Nascimento de uma Nação", responsável (direto ou indireto) pelo "ressurgimento" da Klu Klux Klan, no início do século passado. Mas, de fato, a história do racismo norte-americano é tão vasta, que um documentário de uma hora e trinta minutos não dá conta de abarcar tudo de mais importante. Mesmo assim, "Eu Não Sou o Seu Negro" consegue expressar alguns dos pontos mais expressivos do tema de forma não-didática, e até mesmo, crua, tornando o documentário detentor daquela categoria de "indigesto", sim, mas, necessário.





"Eu Não Sou o Seu Negro" consegue a complexidade de abordar o racismo nos EUA, no decorrer de mais um século, prestando reverência a grandes líderes Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr, e a pessoas não tão conhecidas assim, mas, que foram importantes para a luta contra a segregação racial, caso de Dorothy Counts, que, aos 15 anos, tornou-se a primeira menina negra a estudar no colégio Harding, em Charlotte, sul dos EUA, no longínquo ano de 1957, sendo bastante hostilizada por isso. E, claro, os anônimos, que pagaram com suas vidas por um racismo que ainda persiste, décadas e décadas depois de tantas conquistas. Baldwin, provavelmente, faleceu cheio de dúvidas a respeito do futuro reservado aos negros num mundo assim, mas, como ele mesmo disse uma vez, "não posso ser pessimista, pois, isso significa que me rendi aos meus inimigos. Então, só me resta ser otimista". Baldwin, assim como tantos outros, era negro de si, e de ninguém mais. E, que a luta continue.


Nota: 9/10


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