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Dica de Filme

"Despedida em Las Vegas"
1996
Direção: Mike Figgis


DOLOROSA HISTÓRIA SOBRE DOIS MARGINALIZADOS SOCIAIS FAZ DE "DESPEDIDA EM LAS VEGAS" UM FILME PODEROSO (E, MUITO TRISTE)

Os "rejeitados" pela sociedade, em geral, são personagens fascinantes. Não porque sejam, necessariamente, exóticos", mas, porque escolheram um estilo de vida que vai de encontro aos padrões pré-estabelecidos, e, consequentemente, são mais sensíveis ao sofrimento; dele e o dos outros. Por compartilharem de uma grande desilusão, são pessoas que se entendem, e, por isso, mais suscetíveis a um relacionamento sincero. É o caso de Ben Sanderson e Sera. O primeiro possui um vício incontrolável ao álcool, o que faz com que ele seja demitido, e pegue todo o dinheiro que lhe sobrou para fazer um "despedida" em Las Vegas, bebendo até morrer. Já, a segunda é uma garota envolvida na prostituição que, dia a dia, passa por inúmeras dificuldades, seja com seus clientes, seja com o seu cafetão. Sim, os dois vão se encontrar. E, sim, haverá um romance entre os dois, mas, o cerne dele é bem mais complexo e "pé no chão" do que os vários "Uma Linda Mulher" que temos por aí. Nesse aqui, não há um "conto de fadas" (pelo menos, não um que seja tradicional).




Não esperem julgamentos de valor no filme, ou qualquer outra forma de explicação barata a respeito da atitude dos protagonistas. O roteiro não está aqui a serviço de julgar ninguém. Mesmo que Ben se sinta mal por ver Sera saindo todos os dias para se prostituir, correndo o risco de sempre sofrer uma violência grave, ele não a condena. Da mesmo forma, ela, obviamente, com o passar do tempo, vai se afeiçoando cada vez mais a ele, ficando imensamente triste por ver ele se deteriorando na bebida. Mas, ambos não somente toleram suas respectivas dificuldades, como aceitam o seu par como é, mesmo que isso signifique um grande sofrimento por ver a pessoa amada caindo num poço cada vez mais sem fundo. É daí que nasce um relacionamento "estranho" aos olhos de alguns, porém, bastante honesto, e, por isso mesmo, muito incômodo.

A forma como o roteiro trata os personagens isoladamente também não dá margem a interpretações rasteiras. Ben poderia ser classificado meramente como um depressivo crônico, com muito poder de auto-destruição, mas, ao longo do filme, mesmo que entendamos que se trata de alguém bastante desiludido (principalmente, em relação à família), vamos tendo outras percepções dele, além do vício em si, como a sua profunda decepção pelas pessoas, que só querem distância de sua pessoa. E, ela, mesmo que, em determinado momento, quando não está mais sob o controle de seu antigo cafetão, não deixa a prostituição, apesar de reconhecer que, assim como Ben faz, é um estilo de vida que degrada o seu corpo e mente cada vez mais. Ainda assim, mesmo sendo constantemente humilhada, ela se mostra doce, e com muita carência afetiva, o que justifica sua insistência em ficar com Ben, que a trata como uma pessoa e não como um objeto.




Ben e Sera, ambos marginalizados por uma sociedade moralista, só têm um ao outro. São seres solitários, e o filme faz questão de mostrar isso quando, por exemplo, ela volta de um de seus trabalhos bastante machucada, e os donos da casa onde ela mora pedem para que ela se mude o quanto antes. E, não dizem mais nada, porém, fica evidente o incômodo que é ter Sera como inquilina, denotando, assim, a nefasta hipocrisia a qual todos estão sujeitos. O próprio Ben, ao que consta, nunca teve amigos, e sim, conhecidos que sempre tiveram vergonha de seu comportamento, alguns, apenas contribuindo ainda mais para a manutenção do seu vício. Então, fica a constatação: a sociedade na qual Ben e Sera vivem não é melhor do que eles. Mas, não se enganem: essas situações são muito bem construídas ao longo da narrativa, não forçando a mão em absolutamente nada.

O que resta aos protagonistas deste triste cenário é irem se "apagando" aos poucos, cada um à sua maneira, É doloroso demais quando Ben se levanta da poltrona, e ao invés de ir jantar com Sela, vai direto na geladeira, e, tremendo-se todo, apanha duas garrafas de bebida, enquanto Sela olha, de relance para ele, engolindo, nitidamente, um choro de desgosto. É igualmente triste quando ela chega do seu "trabalho" todos os dias, quase sempre, arrasada física e mentalmente, e Ben também é obrigado a ver essa cena. Mesmo assim, diante de tanta dor, eles decidem ter momentos de "descontração", de irem fazer compras, jogar nos cassinos, etc. No entanto, a ressaca dessa diversão é uma constatação que ambos querem evitar de pensar muito: que o fim, pelo menos, pra um dos dois, está próximo. E, são nesses momentos que o amor dos dois parece se fortalecer mais.





No quesito "atuações", temos aqui duas interpretação simplesmente monstruosas. Da parte de Nicolas Cage, nem os seus habituais histrionismos atrapalham, pois, ele consegue passar todo o desespero, angústia e tristeza que o seu personagem pede, às vezes, com um simples olhar. Sua degradação física em decorrência do vício é impressionante, lembrando bastante a formidável atuação de Humphrey Bogart em "Farrapo". Já, Elisabeth Shue faz de Sera uma personagem fascinante, completamente trágica, mas, sem soar apelativa. Em muitos momentos, sentimos tanta ou mais piedade dela do que de Ben, e essa força interpretativa também se faz excelente através de sutilezas nos momentos certos. O diretor Mike Figgis mostra bastante competência, conduzindo a história com tal ímpeto que, mesmo sabendo, mais ou menos, como será o final da história, não perdemos o interesse em assistir a esse triste, porém, pungente, romance.

"Despedida em Las Vegas" é um filme denso, pesado, melancólico, mas, muito sincero em sua proposta de tentar entender como alguém chega ao estágio de querer se auto-destruir, sem julgamentos moralistas, muito menos, conclusões simplistas. Mesmo com o gosto amargo da bebida que o longa nos oferece, fica também uma bela mensagem sobre aceitação, sobre compreender o outro. Uma tarefa, ao que consta, tão difícil, que somente os marginalizados, até mesmo pelo sofrimento inerente a eles, sabem compreender melhor, sabem ter mais empatia com a dor alheia. Um retrato duro da realidade, de fato, nem um pouco romantizada, mas, que sabe a importância que a dignidade tem para o ser humano. Belíssimo. Bastante sofrido, mas, belíssimo.


Nota: 9/10


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