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Dica de Filme

"A Montanha Sagrada" (1973)
Direção: Alejandro Jodorowsky.


Intenso, visceral, perturbador, crítico, audaz, triste, poético, onírico, insano, violento, sagaz, bonito, filosófico, indigesto, sublime, revolucionário, atemporal. Provavelmente, ainda faltem alguns adjetivos para descrever a sensação que é assistir "A Montanha Sagrada", do cineasta chileno Alejandro Jodorowski. Claro, pra quem já está acostumado à filmografia nada convencional do diretor, talvez ver este filme é estar meio que "preparado" para os inúmeros choques de consciência, que não deixam o espectador em paz durante sua projeção. Mas, paras os desavisados de plantão, só há duas alternativas: amá-lo ou odiá-lo. Um jargão se faz necessário: não é uma produção fácil.

Até descrever a história do filme não é das tarefas mais simples. Talvez, seja até melhor não se ater à história, mas, aos simbolismos que ela carrega. E, são muitos. É necessário atenção e envolvimento com a narrativa. Pelo enredo ter tantas metáforas, chega a ser complicado, é verdade. Mas, se o espectador abandonar, nem que seja por míseras duas horas, o senso comum das coisas, e embarcar na proposta do filme, é quase certo que a experiência será das melhores, mas, não das mais agradáveis, diga-se. As imagens são fortes, carregadas e violentas, porém, jamais gratuitas.




E, além da história principal, em si, há os sub-textos, que, de alguma maneira, completam o enredo, como se aquelas mensagens não fossem meros pontos isolados da trama, mas sim, uma colcha de retalhos que formam um todo, pelo qual Jodorowski quer nos convidar a refletir. Temos críticas das mais variadas, que atacam a religião, a sociedade de espetáculo e a colonização das Américas, passando por coisas mais subjetivas, como o consumismo e o nosso (natural) instinto violento. Tudo isso repleto de imagens oníricas, algumas lindas, outras completamente repugnantes.

Para compor um roteiro tão cheio de significados, que, inclusive, perpassam pela arte da alquimia, Jodorowski pegou bastante de seu conhecimento próprio, já que, além de cineasta, ele é poeta, quadrinista, dramaturgo, ensaísta, tarólogo e especialista em psico-magia (!). Além disso, o diretor, ainda muito jovem, trabalhou como palhaço de circo e artista de marionetes, o que se reflete em boa parte de seus filmes, que, sempre acabam tendo alguma referência a artistas circenses. Mesmo com tanta bagagem, e realizando a trama de "A Montanha Sagrada" em meio a tantas inspirações, todos esses elementos são colocados na história de forma incrivelmente orgânica, quase natural, por incrível que possa parecer.




Porém, umas das principais críticas que Jororowski faz nesse filme é em relação à religião, mais, especificamente, ao Cristianismo, que toma uma boa parte da projeção inicial do longa. O fato do "personagem principal" ter bastante semelhança física com Jesus Cristo não é à toa, gerando sequências verdadeiramente brilhantes e desconcertantes, que evidenciam, por exemplo, o comércio da fé e a hipocrisia de boa parte dos religiosos. Quando outros personagens aparecem no enredo, há também interessantes críticas feitas à sociedade, já que cada um deles representa uma espécie de "dono de um planeta", em que eles têm funções bem delimitadas: construir jogos de guerras, fabricar máscaras para as pessoas fingirem quem não são, e por aí vai.

Como se vê, de fato, não é um enredo de fácil assimilação, porém, quando se começa a assistir "A Montanha Sagrada", o espectador, às vezes, sem perceber, vai se acostumando às "viagens" visuais, mesmo que não consiga captar tudo. O que move o filme é a grande inquietação de Jodorowski diante das coisas do mundo, e esse sentimento de revolta, ainda presente nos dias de hoje, porém, mais intenso naquela época, cria uma espécie de identificação com as nossas próprias angústias. Trata-se de um filme não pra ser assistido, mas, sentidos por todos os poros do corpo.




Mesmo passados mais de 40 anos, "A Montanha Sagrada" não envelheceu. Ao contrário: continua sendo uma das produções mais inquietantes, transgressoras, revolucionárias e inacessíveis da história do cinema. Aquele tipo de filme que é preciso se assistir, pelo menos, uma vez na vida, seja você cinéfilo ou não. Com suas múltiplas mensagens e cenas, até hoje, provocativas, a produção consegue fazer refletir com as imagens mais aterradoras possíveis, sem jamais ser apelativo. Que outro cineasta e sua obra conseguiria tal façanha em tempos de "arte fácil"?


Nota: 10/10.

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