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Dica de Filme

"O Fantástico Sr. Raposo" (2009)
Direção: Wes Anderson.


Wes Anderson é dos poucos cineastas norte-americanos atuais que podemos dizer que faz, de verdade, um cinema autoral. É relativamente fácil identificar os seus filmes, sempre cheios de excentricidades, situações nonsenses e uma incrível predileção para personagens desajustados e inadequados socialmente. Lembra um pouco o jeito de Tim Burton, sendo que este, na maioria das vezes, faz caricaturas leves da sociedade. Ao passo que Anderson parece ser mais incomodado com as coisas, e, por isso, mostra-se mais cínico, digamos assim.

"O Fantástico Sr. Raposo" é baseado num livro, digamos, "infantil", mas, Anderson se apropriou com tanta firmeza da história que o argumento parece ter sido escrito por ele. É um enredo que se encaixa perfeitamente com as maluquices habituais do diretor. Fala, basicamente, das desventuras de Raposo, que, após ter, aparentemente, abandonado a vida de ladrão, começa a trabalhar num jornal e se casa. Constrói uma família, mas, sente-se incompleto como animal selvagem. É dessa inquietação que vão surgir inúmeros problemas que o farão repensar sua condição na cadeia alimentar.




Ok, a premissa, de fato, é (bem) estranha, mas, incrivelmente, funciona na tela. Conta muitos pontos a favor a animação ser em stop motion, o que dá um charme extra ao desenho, e é condizente com sua aura mais adulta. E, mesmo em stop motion, a produção é muito bem cuidada, tendo um nível de animação bem competente e interessante. Algumas sequências, como a do supermercado, perto do final, mostram bem esse esmero na hora de construir os cenários, minimalistas, mas, cuidados com precisão.

A história, em si, pode, à primeira vista, parecer um tanto infantil, mas, apresenta camadas interessantes de interpretação. Vai desde de a preocupação em ascender economicamente numa sociedade competitiva, até a questão do respeito e da tolerância (algo, por sinal, mais bem resolvido aqui do que na recente animação "Zootopia"). A falta de adequação aos padrões sociais "normais" faz de Raposo um eterno inconformado, em busca de algo a mais para a sua vida. Nesse sentido, remete um pouco ao icônico personagem de Kevin Spacey em "Beleza Americana".




Como é de praxe nos filmes de Anderson, o humor também está presente. Só que não esperem aquele humor pastelão ou apelativo que se convencionou a ser feito na atual cinemão hollywoodiano. A graça aqui é um tanto carregada, e, de tão absurda, faz rir. Não chega a ser um riso forçado, porém, ele dá uma outra dimensão para o humor, o que é ótimo, pois, tira um pouco o espectador daquela zona de conforto do humor fácil e rasteiro. Pra quem assistiu "O Grande Hotel Budapeste", última produção de Anderson, dá pra perceber que essa característica é marcante na filmografia dele.

Outro ponto interessante do filme é a dublagem original. Temos, por exemplo, um George Clooney e uma Meryl Streep fazendo do Sr. e da Sra. Raposos, respectivamente, um casal bastante inusitado. Há também "coadjuvantes de luxo", como um sempre insano Willen Dafoe fazendo a voz de um rato psicopata e lutador de artes marciais (!). A trilha sonora, que vai de sons infantis (mais puxados pra uma espécie de provocação, mesmo), ao rock britânico completa a obra de maneira muito esperta, combinando perfeitamente com o sarcasmo que impera na animação.




E, Wes Anderson, mais uma vez, conseguiu. Entregou um filme que tem o seu charme, é perturbador, mas, cativante, e que, mesmo sendo uma adaptação, tem a sua cara. Um cineasta, que, mesmo não realizando filmes tão excepcionais, possui uma identidade que faz com que suas obras sejam, quase sempre, um espetáculo interessante de se assistir. No meio de tanta mesmice ou de propensos "revolucionários da sétima arte", Anderson nos traz um antídoto simples: filmes com histórias bem contadas. Apenas isso.


Nota: 8,5/10.

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