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DICA DE LIVRO

"A REVOLUÇÃO DOS BICHOS", escrito por George Orwell, em 1945.




Por muito tempo, relutei em ler este livro. Oportunidades apareciam, mas sempre adiava me debruçar nele por algum motivo. E, eis que surgiu uma chance ao final do ano de 2013. Providencial? Se levarmos em consideração que esse foi um ano turbulento em termos de revoltas e manifestações sociais, principalmente no Brasil, creio que o li no momento ideal.

Pra começar, Orwell se vale de alegorias, não sendo necessariamente direto em suas abordagens críticas, o que é excelente. Assim, a mensagem é passada com mais naturalidade. E, a ideia básica dele foi traçar um paralelo entre a sociedade e uma fazenda com bichos diversos, com muitas representações e nomes de personagens que fazem bastante sentido. Em determinada situação, um porco de nome sugestivo de Major faz um inflamado discurso de liberdade aos animais do local, indagando o porquê deles serem escravizados, enquanto os humanos ficavam com todas as regalias.




Eis um pouco de suas palavras:

"A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua. Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes? O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Basta que nos livremos do Homem para que o produto do trabalho seja só nosso."

Perceberam?

Esse discurso, tão "apaixonado", não se diferencia em nada do palavreado de muitos líderes populistas que vemos por aí. A platéia de bichos da fazenda fica estupefata com o que Major diz, tanto quanto a platéia que hoje aplaude certos tipos de políticos. No livro, a partir desse momento, a fazenda passa a ser comandada pelos porcos, que se julgam os únicos capazes de levar os bichos a se libertarem da tirania do Homem. No entanto, dois deles, Bola de Neve e Napoleão, passam a disputar a liderança, e após um "golpe" dado por Napoleão, este se torna soberano do lugar.




A fábula de Orwell é de uma verdade desconcertante ao criticar abertamente o poder político concentrado nas mãos de um megalomaníaco vaidoso. As ações de Napoleão, na fazenda, visam somente enaltecer sua imagem; nada mais. Em determinado momento, mentiras contadas passam a mascarar a verdade histórica dos fatos. Por exemplo, Bola de Neve foi quem comandou uma ofensiva aos humanos em sua primeira retaliação à revolução do bichos. Depois, disseram que ele, na verdade, estava fugindo das pessoas, e os animais acreditaram. Por fim, convenceram a todos de que Bola de Neve foi cúmplice dos humanos, e todos, por falta de memória, acataram. A arte imitando a vida?

Quando alguns poucos bichos ameaçam uma ofensiva à ditadura de Napoleão, são rechaçados e silenciados de todas as formas, do terror psicológico à execuções sumárias na frente de todos. Ao final, porcos e homens, ambos sob duas patas (!!!), juntam-se, unem forças para explorar ainda mais os animais da fazenda, e, consequentemente, confundem-se, tanto física como moralmente.




A atemporalidade dessa obra de Orwell se mostra bem clara quando, por ignorância da própria sociedade retratada nela, o autor foi acusado de comunista no lançamento do livro, e, anos depois, na Guerra Fria, "A revolução dos Bichos" foi tida como uma alegoria anticomunista. Ou seja, ninguém entendeu nada! Não se trata de sistema político "A" ou "B", mas como o poder, concentrado nas mãos de poucos, provocam a exploração de muitos, e de como a tirania de um líder leva, perigosamente, a uma ditadura, sem direito a contestação ou pensamento livre. Algo, pois, presente em qualquer lugar do mundo, em qualquer época.

Sem chance de ser mais atual que isso...


NOTA: 9,5/10.

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